Resenhas

Fleet Foxes – Shore

Com a precisão e o apuro de Robin Pecknold, quinto disco dá contornos Pop ao Folk e, ecoando mudanças e urgências, é ideal para o momento

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Ano: 2020
Selo: Anti
# Faixas: 13
Estilos: Folk, Chamber Pop
Duração: 54'
Produção: Robin Pecknold

Fleet Foxes parece ser uma banda que leva o estereótipo hipster às últimas consequências – e isso não vem como demérito. Não por pedantismo, um ar blasé ou por típicas frases como “eu prefiro a demo obscura nunca lançada de tal banda aos discos novos”, ditas por fãs. A grande sacada do grupo sempre foi trazer referências que andem no sentido contrário das tendências tantos das ditas cenas locais quanto da fatia do “show biz” no qual se inserem. Vindo de Seattle, o grupo pode até ter tido uma experiência influenciada pelo Indie Rock em suas primeiras demos, entretanto, a sonoridade construída a partir de então sempre coloca algo “diferentão”, não pelo aspecto cool da coisa, mas como um novo campo a ser exaustivamente explorado por seus habilidosos integrantes.

Os dois primeiros registros (Sun Giant e Fleet Foxes, ambos de 2008) iluminaram um ponto na tradição Folk Americana que se desviava do típico singer-songwriter de voz frágil, imprimindo referências medievais e polifonias barrocas. Já o celebrado segundo álbum, Helplessness Blues (2011), trouxe um pouco a estranheza de acordes menos convencionais e texturas rígidas, na contramão da mansuetude do Folk popular. Após um hiato de seis anos, a banda lançou o seu mais maduro disco até então, Crack-up (2017). Um trabalho que, em meio à explosão da música eletrônica e à consolidação do Rap como força poderosa de mercado, trouxe um Folk descompromissado e marcante. Agora, depois de um intervalo bem mais curto, o grupo coloca no mundo seu novo disco e, contrário à sua tradicional exploração do “estranho”, Fleet Foxes faz algo como um movimento novo, de ir a favor da corrente – porém à sua maneira.

Shore é um disco cuja evocação da paisagem praiana não é à toa. Robin Pecknold e sua trupe se colocam à disposição das correntes do mar e deixam as ondas os levarem, incorporando elementos que estariam muito mais relacionados a uma música Pop, ainda que dentro do Folk. Baterias rígidas, estruturas mais usuais e até mesmo colaborações com outros artistas são alguns dos aspectos nos quais o grupo se escora para compor estas novas canções.  Mas, ao colocarmos dessa forma, pode parecer que o grupo teve um grande sell-out (o “famoso traiu o movimento”). E tratando-se de Fleet Foxes, as coisas nunca são tão simplistas assim.

O grupo abarca todos esses elementos não pela funcionalidade, mas para compor uma nova e fascinante narrativa. Há outra dinâmica, mais abrangente e acolhedora, diferente daquela de seu antecessor, Crack-up. A raiz do Folk americano continua como uma célula intocável e preciosa, essência primordial das composições da banda. E, ao redor dela, vão se construindo novos alicerces sustentados por timbragens originais, texturas envolventes, harmonias intensas e letras de um teor fantástico – herança recorrente da qual o grupo não abriu mão.

Shore é um trabalho sobre encarar o novo e não poderia ter vindo ao mundo em melhor momento. Muito da experiência da composição vem atravessada pela pandemia, que forçou o grupo a reorganizar os cronogramas de gravação por conta do impacto do COVID-19 nos Estados Unidos. Nas letras, este sentimento de cooperação frente à adversidade aprofunda ainda mais Robin Pecknold nas minúcias das relações humanas – mas em um sentido mais ecumênico e menos individual. Segundo ele, este talvez seja o disco menos pessoal que ele já compôs. Outra grande inspiração vem do confronto de Robin com esta nova realidade enquanto fazia longas viagens de carro pelos Estados Unidos, contemplando os grandes vazios causados pelo isolamento social. Estas imagens ganham vida no filme produzido para ilustrar o disco e disponibilizado no YouTube.

Na lista de inspirações de Shore, constam nomes como João Gilberto, Nina Simone, Jai Paul, Tim Maia, Van Morrison e Sam Cooke. Dessa forma, dá para se ter uma noção de como Robin empresta diferentes elementos de cada referência para compor o disco. Portanto, como de costume, cada faixa do disco tem uma magia própria e é um universo singular a ser desvendado em cada oportunidade.

A faixa de abertura, “Wading In Waist-High Water”, nos chama a atenção logo de início pelos vocais femininos de Uwade Akhere e um coro de crianças, carregando uma leveza ímpar. “Jara”, por sua vez, amplia os espaços com as famosas e reverberadas harmonias vocais, que induzem uma sensação de voo no ouvinte. “Maestranza”, ainda que um dos exemplos de canções mais focadas no Pop, principalmente por seu trabalho percussivo, conserva a magia inegável das melodias de Robin Pecknold. “Going-to-the-sun Road” soa como homenagem à música brasileira, seja por conta dos arranjos à la Clube da Esquina ou pela participação de Tim Bernardes cantando versos em português (“A estrada do sol é o começo de tudo…”). A canção que dá título ao registro é a mesma que o encerra, em tons mansos que constroem um emaranhado de timbres e vozes – um caos intrigantemente harmônico, habilidade muito característica do Fleet Foxes.

Shore é um trabalho diferente de seus antecessores, porém, sem dúvidas, dotado do mesmo apuro e precisão de Robin Pecknold. Imerso em Pop, mas sem reprimir sequer um fio de influência Folk, expressa as dificuldades de um período como esse, mas também defende as relações pessoais e os vínculos como saída (ou alívio) do caos. Sobre mudanças e urgências, Shore é ideal para o momento – como costumam ser os discos do Fleet Foxes.

(Shore em uma faixa: “Going-to-the-sun Road”)

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ARTISTA: Fleet Foxes

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.