Resenhas

Floating Points – Elaenia

Primeiro disco do produtor revela-se viagem única por diferentes gêneros musicais

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Ano: 2015
Selo: Luaka Bop
# Faixas: 7
Estilos: IDM, Jazz Fusion, Instrumental
Duração: 43:00
Nota: 4.5
Produção: Floating Points

Sam Shepherd nunca foi uma figura considerada padrão dentro da Música Eletrônica, pelo menos em suas vertentes direcionadas às pistas de dança. O produtor passou os últimos sete anos digressando por caminhos não tradicionais e com BPM devagar, mesmo quando lidou com gêneros estabelecidos, como House ou Disco. Sua discografia, que não passa de alguns EPs e singles, criou a forma híbrida de um som por vezes espacial, inconclusivo e sem tanta padronização, como aparece no ótimo relato Shadows (2011). Logo, já era esperado que o lançamento de seu primeiro disco de longa duração utilizasse elementos eletrônicos como meio, e não formato, para a música que ele gostaria de criar.

Elaenia é muito mais que um disco Eletrônico, até porque não se limita a osciladores, filtros e tempos marcados no 4/4. É um trabalho solto, porém bem pensado, aberto e silencioso quando necessário, e que abraça a Música Instrumental sob as mais variadas formas. Podemos ouvir Jazz, Post-Rock, IDM e Ambient – todos em uma mesma canção como a imensa Silhouettes (I,II, III) – mas também podemos ouvir o barulho de máquinas conectadas e sincronizadas através de cabos de dado e voltagem.

Nespole, uma das quatro faixas de Elaenia, foi feita por Floating Points em seu quarto, é um desses exemplos. A abertura do disco utiliza-se da conexão, ruído e aleatoriedade para abrir o caminho em uma música Eletrônica sem batidas. Quase uma heresia em tempos de bumbos, caixas e palmas bem marcados, a faixa pode até ter compassos marcados por loops de sintetizadores, mas nunca se torna elementar em sua execução.

Instrumentos vão aparecendo e sumindo em camadas, semelhantes às ondulações do mar nos momentos mais Eletrônicos do disco, como na crescente e arpegiada Argente ou na desfigurada e livre Thin Air. As oscilações das músicas passam não só pelos matriz dos sintetizadores de Floating Points, mas também pela sua vontade em modular sons para criar atmosferas complexas e imaginativas. Do começo ao fim, o disco mostra-se a sonoridade ideal para momentos de relaxamento e reflexão.

Algumas faixas crescem de acordo com sua audição contínua, como a calma e lenta faixa título que se revela um Jazz espacial extremamente emotivo e viajado. Os delicados sete minutos de Elaenia nos apresentam a música necessária para acalmar os ânimos de um disco que chegara a sua metade. No entanto, os grandes momentos surgem quando Sam é acompanhado por outros músicos em faixas organizadas de formas não imaginada. O baixista Susumu Mukai, o guitarrista Alex Reeve e o baterista Tom Skinner – membro da banda de Jonny Greenwood – aparecem na épica Silhouettes, na emotiva For Mamish e na explosão final de Peroration Six.

A primeira faixa é extremamente densa, diversa e tem seu núcleo fundamentado no Jazz Fusion – instrumentos vão sendo improvisados até que, em certo ponto, tudo caminha para outro lugar. É a grande faixa de Elaenia e a prova de que Floating Points está mais para os lados viajantes e espirituais compartilhados com Flying Lotus do que outros semelhantes no meio. Quase erudita, seus onze minutos revelam a minúcia do músico em conciliar a estética livre de uma Jam com o trabalho orquestrado de uma trilha-sonora completa.

Todavia, a belíssima balada, For Mamish é a canção que extravasa meios e gêneros para se tornar um momento instrumental inesquecível. Viciante, seu Jazz baseado em uma linha de baixo emotiva e um piano largado no delay de suas teclas a tornam a melhor faixa do disco. O término cósmico de Peroration Six, que se deteriora em um silêncio súbito semelhante ao vácuo, conclui uma obra de 43 minutos de viagem, experimentos e pouca adequação com não só a Música Eletrônica comum, mas também o gênero Instrumental como um todo.

Elaenia tenta combinar diferentes gêneros, sem se limitar nunca ao organismo musical que se formou em Sam Sheppard ao longo da sua vida. Como pede seu nome artistisco, o músico deseja flutuar por diferentes lugares até encontrar o seu lugar, o que se mostra cristalino em seu aguardado LP.

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BOM PARA QUEM OUVE: Tycho, Bonobo, Flying Lotus

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.