Resenhas

Fontaines D.C. – Skinty Fia

Terceiro disco da banda irlandesa une referências da literatura a inspirações da vida cotidiana em repertório mais ousado e experimental

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Ano: 2022
Selo: Partisan Records
# Faixas: 10
Estilos: Indie Rock, Punk
Duração: 44'
Produção: Dan Carey

Quando analisamos a formação do indie como gênero e ideologia, muitas vezes nos deparamos com a história da exaltação de uma comunidade local. Aquela conhecida concepção – que depois até desembocou no estereótipo hipster – de que o que vinha de fora de uma comunidade, como músicas das grandes gravadoras e veículos de mídia mainstream, não prestava, contribui fortemente para a identidade musical de determinadas regiões. A cidade de Seattle, por exemplo, tornou-se conhecida por apostar na sonoridade suja e rodeada de referências punk em bandas como Sunny Day Real Estate e representantes do grunge. O indie inglês, por sua vez, construiu uma estética muito pautada em analogias com anos 1970, dando aquele ar rebuscado em canções de Amy Winehouse e Kate Nash. Mesmo com as tecnologias que diminuem distâncias físicas, o indie ainda conserva um pouco desse senso de comunidade – mesmo que, por vezes, esta comunidade se localize de forma completamente online, como no caso do bedroom pop durante a última década. Particularmente no caso da banda irlandesa Fontaines D.C., este sentimento é compreendido de tal maneira que já se tornou característica fundamental. O grupo vai além de símbolos irlandeses como a cultura celta e o rock leprechaun, e suas referências nacionais se alastram por linguagens diferentes da musical.

Desde que o grupo ganhou popularidade massiva com seu disco de estreia Dogrel (2019), os garotos se tornaram uma espécie de símbolo do renascimento indie do final da década passada. Seu som se destacou por trazer novas maneiras de enxergar as qualidades de um gênero que por muito tempo insistiu em certos estereótipos. Havia a agressividade das guitarras estridentes, mas permeadas por temas muito mais filosóficos, em contraposição ao cotidiano. Havia a crueza do indie, porém sempre repensada de forma mais ampla – uma espécie de catarse planejada. Era uma sonoridade muito mais próxima de bandas inglesas como The Horrors e Editors, do que de seus conterrâneos Dropkick Murphys. Mas, de uma forma ou outra, parece que a banda sempre esteve ligada ao indie – como um esconderijo secreto em que  conheciam todos os cantos. E em seu novo trabalho de estúdio, aquele senso de comunidade também se torna uma motivação que, paradoxalmente, os lança para fora do indie.

Skinty Fia é o terceiro trabalho do quinteto e, certamente, o mais complexo em termos de referências. Em diferentes entrevistas, os membros comentam como as inspirações vão muito além da música. Por exemplo, a literatura ocupa grande espaço dentro do imaginário criativo da banda e especialmente no livro Stoner, de John Williams, o integrante Grian Chatten encontrou inspirações para compor as novas letras do disco – e o cotidiano, aqui, se torna propulsor de temas filosóficos. Esta parece ser a ideia geral do álbum: retomar temas mundanos tão caros ao indie, mas estabelecer uma nova linguagem para a música que envelopa estes assuntos. Dessa forma, o quinteto conhecido por se manter firme aos sons clássicos do indie rock começa a rumar para fora da zona de conforto. O indie ainda é o referencial, mas ele aparece transformado para além das guitarras estridentes e daquela efervescência da juventude. O resultado é um trabalho que percorre o noise, o punk, o experimental e até mesmo o pop (inimigo do indie nas primeiras décadas de existência).

Na primeira faixa de Skinty Fia, “In ár gCroithe go deo” o grupo já mostra um universo diferente de seus primeiros trabalhos, apostando em vocais mais melódicos e coros quase sagrados. “How Cold Love Is” é centrado no indie tock, mas pautado para um lado mais suave e menos explosivo – apesar de manter a força ao nos trazer as duras constatações da frigidez do amor.  “Roman Holiday” é uma típica balada mais lenta, porém adornada com ecos que nos dão aquela sensação psicodélica na medida exata. A faixa-título do trabalho (uma expressão irlandesa que remete a uma espécie de cervo extinto) é o momento que mostra o quão longe Fontaines D.C. consegue ir, flertando com o downtempo e trip hop dos anos 90.  Por fim, “Nabokov” encerra o disco em som pesado, com batidas lentas que lembram um shoegaze com toques de brit pop.

Skinty Fia é um salto de imensa qualidade na discografia do Fontaines D.C. Há um repertório bem polido que mescla referências do indie a novos elementos, ressignificando o que é ser uma comunidade musical hoje em dia. Influências da literatura se unem a inspirações cotidianas, promovendo um sentimento efervescente que nunca perde seu caráter de pertencimento. Parece que o título escolhido para a primeira faixa não é uma coincidência: “In ár gCroithe go deo” significa “em nossos corações para sempre”.

(Skinty Fia em uma faixa: “Skinty Fia”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.