Resenhas

Foster the People – Supermodel

Postura crítica e alta qualidade caracterizam um disco que chega sem medo de comparações ao seu antecessor

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Ano: 2014
Selo: Columbia
# Faixas: 11
Estilos: Pop Psicodélico, Pop, Indie
Duração: 54'
Nota: 4.0
Produção: Paul Epworth e Mark Foster
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2Fsupermodel%2Fid793285794%3Fuo%3D4%26partnerId%3D2003

Se discos também não devem ter suas qualidades julgadas pela capa, ao menos podemos deduzir algumas coisas por ela. No caso do segundo trabalho da Foster the People, que teve a arte assinada pelo mesmo artista de Torches, saem os bichinhos de aspecto subservivo e entra em cena uma modelo cercada de paparazzos, que fotografam o momento em que ela vomita um poema de cima de seu pódio de barras de ouro que, como sabemos, vale mais do que muita coisa. Só disso, já tiramos que o álbum será construído por semelhanças e diferenças de seu anterior, demonstrando um caráter mais crítico (como já era esperado) sem perder a identidade do grupo – e a identidade visual tem um papel importante nesse aspecto.

E isso é irônico, já que Supermodel vem como uma grande crítica à sociedade que vive quase exclusivamente de aparências, que confunde meros indicativos por valores absolutos e busca mecanismos visuais na tentativa de definir sua própria existência. Agora sem qualquer ironia, grande parte do público que fez Foster the People chegar aonde chegou está tão mergulhada nessa cultura que não consegue estabelecer uma postura crítica quanto aos malefícios de uma vida por aparências, nem mesmo consegue se enxergar como parte de tal fenômeno. É aquela pessoa que tenta a todo custo mostrar quem é (ou quem gostaria de ser) em redes sociais, seja fazendo muita questão exibir aquela tal opinião ou mostrar uma foto pra dizer que aquela festa, viagem ou qualquer situação corriqueira tenha sido incrível (embora a gente saiba que a pessoa não sabe bem o que está falando ou que só lembrou de sorrir na hora que apontaram a câmera pra ela).

Se Torches era uma selfie inocente de um momento divertido, Supermodel é um retrato documental e crítico dessa nossa época, e isso vem acompanhado de um som muito mais ousado do que aquele apresentado pelo trio antes. Não é um disco de Pumped Up Kicks e Houdini – hits excelentes que marcaram o som do álbum de estreia -, mas de faixas grandiosíssimas como Pseudologia Fantastica e A Beginner’s Guide to Destroying the Moon – ambas incrívels e inegáveis pontos altos do registro. Entre as duas, encontramos Best Friend, que fecha a tríade de melhores músicas do disco com a missão de equilibrar aquele meio do álbum com uma proposta super dançante, tal como muitas músicas do trabalho anterior, mas em uma proposta bem diferente do que Mark Foster e os outros músicos já fizeram até agora.

A impressão é que as três primeiras músicas tentam construir uma ponte entre os dois discos, argumentando entre similaridades e diferenças com o que já esperávamos da banda, como se nos preparassem para o que vem pela frente. Are You What You Want to Be? inaugura a obra colocando o ouvinte na parede para pensar sobre a vida no meio da festa, mesma proposta de Ask Yourself. Ou seja, para começar a criticar a sociedade da aparência, a banda começa colocando o ouvinte para pensar em si mesmo. É aí que entra em cena Coming of Age, a primeira faixa de Supermodel que veio a público, dando uma sensação de familiaridade que quebra o possível desconforto do ataque filosófico que acabou de acontecer.

Até então, já reparamos que os sintetizadores enlouquecidos deram mais espaço às guitarras, mas aquela pegada Pop de refrões fáceis de cantar junto permanece (Nevermind comprovará o mesmo fato logo depois). As diferenças não param por aí e ficam ainda mais evidentes quando Mark Foster dá uma de singer songwriter em Goats in Trees e Fire Escape, músicas com poucos instrumentos para suas letras ficarem ainda mais em evidência.

Se comparar dois álbuns de uma mesma banda torna-se praticamente inevitável, quanto mais o primeiro e o segundo, fica a impressão de que Foster the People tinha justamente essa intenção ai lançar Supermodel. As similaridades entre os dois trabalhos acabam definindo de uma vez por todas a identidade do grupo, enquanto as novidades denotam maturidade e, sim, o talento dos músicos, principalmente o de Mark Foster como produtor. Ele consegue fazer música de qualidade tão alta quanto sua popularidade. Como poderes dessa dimensão trazem responsabilidades proporcionais, a banda cumpre seu papel de abrir os olhos de um público não-crítico para sua própria realidade e, de quebra, eleva o gosto musical de seus ouvintes sem parar de fazer festa.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.