Ao mesmo tempo em que alimentava seu prolífico catálogo de álbuns solo ao longo dos últimos anos, Andy Shauf também burilava, um pouco por baixo dos panos, o projeto Foxwarren, sua banda formada em conjunção com os músicos Colin Nealis, Dallas Bryson e os irmãos, Darryl e Avery Kissick. O primeiro álbum do grupo, o autointitulado lançado em 2018, acabou passando um pouco por baixo do radar do público, seja porque Shauf parecia bastante engajado em sua carreira solo, seja por razões maiores, como a chegada da pandemia que atravessou o mundo – nesse caso, mais especificamente, todo o setor artístico – de uma maneira desestruturante.
Em Foxwarren, Andy Shauf é também o vocalista, mas o que diferencia a banda de seu projeto pessoal é principalmente a autoria das músicas, que passam por processos colaborativos muito interessantes. Foxwarren, o lançamento antecessor, foi composto com uma folha de papel sendo passada de mão e mão, com cada músico contribuindo com alguns versos para um produto final – canções coesas.
Agora, o sucessor, simplesmente intitulado 2, dobra um pouco a aposta de ser um produto de várias mãos, colocando também no resultado estético do disco a evidência de que se trata de uma colcha de retalhos. Com cada integrante do grupo morando em um pedaço do Canadá, 2 foi feito com excertos musicais sendo colocados dentro de uma pasta online compartilhada, ficando a cargo de Shauf a costura final das coisas.
No entanto, as costuras estão à mostra: 2 é formado de recortes de samples, vinhetas e outras células musicais, que dão um aspecto experimental ao trabalho, algo convencional se pensarmos num estilo musical como o hip-hop, mas extremamente inusitado se tivermos o folk norte-americano como delimitação.
Em sua carreira solo, Shauf é um contador de histórias de primeira categoria, conseguindo criar ganchos e plot twists em canções que se ouvem não apenas pela música, mas também para se saber o final da história. Aqui, o conceito fica um pouco mais difuso: é possível acompanhar as letras de 2 como se estivéssemos acompanhando as fases do luto de um relacionamento que se acaba, mas o foco não é esse. Com texturas improváveis, timbres colados em lugares inesperados, 2 acaba por ampliar muito o universo conceitual de Foxwarren. Colocando a perspectiva do “folker singer-songwriter” de ponta-cabeça, é um dos lançamentos mais interessantes do estilo deste ano.
(2 em uma faixa: “Listen2Me”)
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