Resenhas

Frank Ocean – Channel Orange

Álbum de estreia do músico justifica a hype criada ao redor de sua bela voz

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Ano: 2012
Selo: Def Jam
# Faixas: 17
Estilos: R&B, Rap
Duração: 55:48
Nota: 4.0

Seguindo a cartilha dos novos artistas atualmente, Frank Ocean conseguiu criar hype em torno do seu primeiro álbum. Entretanto, no caso deste artista, o buzz ganhou proporções ainda maiores dado à sua voz talentosa aliada a alguns fatos. O lançamento da sua mixtape Nostalgia/Ultra mostrava um talentoso membro do mega grupo de rap OFWGKTA, liderado por Tyle, the Creator, mas que não se destacava pelas letras ou pela capacidade de rimar, mas sim pela terna voz e musicalidade tendenciosa ao R&B. Bastou essa demonstração da capacidade de Frank para que seu nome começasse a circular no meio do Hip-Hop, com parcerias e “tutores” tentando capturar o pupilo. Dois deles foram simplesmente Kanye West e Jay-Z, que colocaram o jovem em duas canções do cultuado CD de “estreia” do duo, Watch the Throne. O hype estava criado e o primeiro disco viria sem antes uma polêmica: Frank declarou, algumas semanas antes do lançamento do LP, ser bissexual – prato cheio pros críticos aparecerem com os dizeres de “auto-promoção”, “oportunismo” , etc.

Críticas a parte, o importante é a análise do recém-lançado Channel Orange e não entrar nesse tipo de detalhe irrelevante. Start é um ponte de entrada, com sons perceptíveis de uma mensagem no Iphone e o de inicialização do primeiro Playstation, que mostra somente que o artista do CD tem provavelmente as mesmas influências culturais que o ouvinte. Thinkin Bout You tem uma batida leve e calma, com uma voz alcançando graves e agudos quase naturalmente, e declara o pensamento naquele que talvez tenha sido o seu primeiro amor. Fertilizer é um brincadeira pop de 40 segundos de Ocean que, se fosse melhor gravada e produzida, poderia se tornar algo maior. Sierra Leone tem uma batida com ritmo de coração com delay e vai crescendo até se tornar orquestrada, entretanto, assim como as primeiras canções do álbum, o destaque vai para a voz de Ocean e não necessariamente às batidas construídas, algo que muda a partir da próxima música.

Sweet Life inicia uma trinca de canções que abordam o dinheiro e vida boa dos rappers. Levada no piano, junto com um groove na bateria, a música mostra a primeira canção que alia uma boa estrutura à voz do cantor, sendo bem R&B e lembrando os bons momentos de John Legend. Logo em seguida, vem um diálogo, Not Just Money, sobre questões monetárias com uma mulher dizendo que ela não tem dinheiro, mas sim contas a pagar. Essa questão volta na canção seguinte, Super Rich Kids, com uma mensagem direta aos playboys de plantão. Com a participação do também jovem e talentoso, Earl Sweatshirt, a música tem uma estrutura mais moderna de R&B, que mistura o estilo ao Rap, nesse caso de Earl. A letra é sincera, mas engraçada ao mesmo tempo, devido a boa caracterização feita por Frank: “We end our day up on the roof/I say I’ll jump, I never do /But when I’m drunk I act a fool” . A primeira partipação de um rapper no CD, apesar de curta, é marcante.

Pilot Jones é minimalista com uma letra falando sobre estar chapado, mas não chega a ser relevante diante do que vem a ser as melhores três músicas do CD. Crack Rock tem um groove sensacional, que vem de Little Miss Lover, de Jimi Hendrix. Vemos um Ocean quase como um conselheiro a um viciado em crack, “Hittin’ stones in glass homes /You’re smokin’ stones in abandoned homes /You hit them stones and broke your home”. Pyramid, logo em seguida, é épica em seus quase 10 minutos e a primeira tentativa certeira de Ocean acertar diretamente as pistas de dança. Crescente, com instrumentos acrescentados aos poucos, ela explode com uma batida eletrônica manjada, mas que cabe perfeitamente na música. A voz dele combina muito bem com o eletrônico atual, que necessita de boas vozes para deixar de ser simplesmente um “som de robô”, como diriam alguns. Na metade da música, o tom muda, mas continua eletrônico, dessa vez com uma batida que faria Kanye West dizer “are you feeling this shit nigga?”. Sensacional, a melhor música do álbum de longe. Lost é sexy, e nem dez segundos são necessários para sentir isso . Talvez a grande balada do CD, tem cheiro de hit de longe e deve surgir como single em breve.

White, com John Mayer, é bonita – só instrumental, com um baixo extremamente alto, mas que decepciona pela curta duração e por se concluir que a parceira deveria ter sido melhor explorada. Monks tem outro groove fantástico, mais violento dessa vez, com uma bateria mais alta e Ocean explorando sua voz de outras formas, de uma maneira que a batida e o vocal se tornam algo único. Bad Religion é melancólica, com um órgão e toda orquestrada. O taxista serve como ouvinte para Frank na canção, “Taxi driver /You’re my shrink for the hour/Leave the meter running /It’s rush hour”. A mais bela música do CD é daquelas para se ouvir em uma tarde chuvosa e mostra todo o potencial vocal do cantor, e o que vemos é que o hype em torno de sua bela voz não foi em vão.

Pink Matter parece uma continuação de Bad Religion, no mesmo clima orquestrado e calmo, com Ocean extravasando a sua voz, porém a guitarra swingada já denuncia algo diferente nesta canção. Quando parece que estamos diante do mesmo, aparece André 3000, do Outkast, para rimar e quebrar o ritmo, criando batidas com o tom da sua voz. Forrest Gump é bonitinha e nada demais, lembrando muito o início meio oscilatório do álbum, com voz bem explorada e batidas simples demais. The End é um diálogo misturado com trechos de uma música, e serve somente para fechar o disco.

Todo o hype em cima do cantor tem bons motivos. Sua voz é realmente incrível e ganha ainda mais destaque considerando o nicho musical que ela se encaixa, o R&B. As parcerias com rappers devem ser mais exploradas com o tempo, voltando aonde Frank iniciou tudo, junto com Tyler the Creator. Algumas músicas, quando utilizadas de batidas muito simples, não se sobressaem e parecem que foram feitas somente para destacar a bela voz de Ocean – o que se mostra desnecessário pois, quando bem produzidas, a voz ganha destaque mesmo assim. “Auto-promoção” e “oportunismo” são declarações que só demonstram que se concentrar na opção sexual do cantor é reduzir a qualidade musical da obra e desviar o foco para questões não importantes musicalmente.

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ARTISTA: Frank Ocean
MARCADORES: Ouça, R&B, Rap

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.