Resenhas

Freddie Gibbs & Madlib – Piñata

Parceria entre nomes antigos e distintos no Hip Hop é certeira, surpreendente e exala experiência de vida musical

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Ano: 2014
Selo: Madlib Invazion
# Faixas: 17
Estilos: Hip Hop
Duração: 60:00
Nota: 3.5
Produção: Madlib

É surpreendente ver a evolução do já veterano do Gangsta Rap, Freddie Gibbs, de um ano para outro. Em ESGN, escutamos um disco repleto de versos direcionados à indústria musical enquanto reclamávamos de sua duração, 20 faixas, e de sua extrema falta de criatividade. Repetição, pouca inspiração eram as chaves de um álbum regressivo na carreira do rapper. Mas o que mudou em menos de 365 dias? O acréscimo das batidas de um dos maiores produtores de Hip Hop da história, Madlib, conhecido por trabalhos com nomes como simplesmente A Tribe Called Quest, MF Doom, Mos Def e J Dilla.

O casamento curioso entre um músico conhecido por seus versos urbanos, retratados no cotidiano de periferias, sempre nervosos com olhos sedentos de raiva e uma plural carreira como a de Madlib, com suas batidas referencias à música negra de raiz geraram Piñata, exótico disco e ótima colaboração em 2014. Sempre com o mesmo timbre de voz, nos momentos letárgicos de Broken à violência de Shitsville, temos Gibbs retornando aos seus melhores momentos. A fluidez entre versos e samples da primeira faixa citada são o remédio necessário para o caos urbano enquanto a segunda é a pura explosão que uma cidade grande pode causar a qualquer um: “This Shitsville /I said you acting like your shit don’t stink /Shit’s real”

Ou espírito californiano, esverdeado pela fumaça legalizada no estado norte-americano em Lakers, faixa com participação de Ab-Sou,l nome novo no gênero e que se vê influenciado por esta figura antiga na música. Earl Sweatshirt e Domo Genesis também dão as caras no R&B funkeado de Robes, música com o sample de Lenny White e seu Sweet Dreamer. Aliás, nada melhor que o chapado rapper Doris contribuir em produção que soa engasgada em seus cortes secos e erráticos, mas que dão uma aura sexual à faixa. É impressionante como um subgênero tão batido e decadente no mainstream como Gangsta Rap ganha ares muito mais “classudos” com Madlib. Bomb com Raekwon, por exemplo, transporta o ouvinte para não só um espaço urbano de um bairro ao transitar com sua batida circular e pesada, mas também aos anos 1990.

O hino psicodélico e dedicado aos amantes da erva, High, tem na participação do efervescente Danny Brown o sangue jovem e contemporâneo para criar uma faixa memorável. Dificilmente você irá desejar pular alguma música aqui. Scarface é tão cinematográfica quanto o filme de Brian De Palma, exceto que como trilha sonora se adequaria mais ao seriado Shaft. Os pequenos excertos entre as faixas trazem ares antigos a produção, algo muito bem-vindo. A realidade é que por causa do dinossauro Madlib, temos a sensação de estarmos diante de uma produção totalmente analógica como na tensa Deeper – “Half a thang of heroin in the bathroom/Keep an AK and the backup in the backroom” – narram a história de sua prisão através do arrependimento e constatação fictícia de que seu amor engravidou na sua ausência.

Thuggin é viciante, conto sobre sua época de malandragem com um sample de piano de poucas batidas que se traduz em um constante suspense, como se alguém estivesse sempre atrás de você. Real provavelmente é a melhor faixa do disco e consolida toda a ideia de violência, urbanismo e a visão periférica do rapper em relação ao seu meio. Uma transição em sua metade transforma toda a explosão em mais uma vez letargia, combinando toda a coesão de ritmos vistos no álbum.

Os novos ares respirados através de uma surpreendente parceria não poderiam ser mais assertivos em Piñata. Se por um lado o espírito violento do Gangsta Rap não poderia ser esquecido através da abordagem realista de Freddie Gibbs, não perdemos a tensão em nenhum momento. Madlib a coloca de uma forma mais interessante, atemporal e repleta de swings sensuais. Suas batidas fluem e o rapper contribui igualmente em versos muito mais criativos e maduros do que em seu trabalho anterior, em uma união que soa como Jazz aos nossos ouvidos, explosivo e suave na mesma medida.

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BOM PARA QUEM OUVE: Racionais MCs, De La Soul, Joey Bada$$
MARCADORES: Hip Hop, Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.