Resenhas

Frightened Rabbit – Painting of A Panic Attack

Novo trabalho dos escoceses mostra dramaticidade para estádios lotados

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Ano: 2016
Selo: Atlantic
# Faixas: 12
Estilos: Pop Alternativo, Rock Alternativo, Indie Rock
Nota: 3.0
Produção: Aaron Dessner

Vou ser sincero – e aproveitem, porque jornalistas especializados em música nem sempre o são: não conhecia Frightened Rabbit nem de nome, nem de som. Nada. Totalmente estranha para mim a sua existência e, sendo assim, precisei me informar. Descobri que trata-se de uma banda de Glasgow, capital da Escócia, liderada por um sujeito chamado Scott Hutchinson. A ideia dos caras – um quinteto – é cair de boca numa sonoridade que chegou lá pelo início dos anos 00, uma espécie de revisita do Pós-Punk oitentista, devidamente tunado por timbres e atitudes oriundas da encruzilhada do Rock Alternativo americano dos anos 1990 e uma pitada de dramaticidade pós-OK Computer, o álbum em que Radiohead anunciou que o novo milênio não seria feliz ou colorido. É mais ou menos por aí que nossos amigos transitam.

Uma das formações mais emblemáticas desta sonoridade é The National. Não por acaso, Frightened Rabbit recrutou o baixista da banda, Aaron Dessner, para a produção deste bom Painting Of A Panic Attack. Dessner é um cara descolado, dono de estúdio em Nova York e, generoso o bastante para participar de vários álbuns, de várias pessoas, de Sufjan Stevens a Sharon Von Etten, acrescentando um punhado deste conceito sonoro por onde passa, além de, claro, assinar as produções do próprio The National e de já ter participado de outros álbums dos escoceses. Além desta receita, podemos notar que o resultado deste novo disco dos caras também aposta firme na possibilidade deles se tornaram uma banda de estádio, ou, melhor dizendo, o correspondente a este conceito nos tempos de hoje. É, resumindo, uma cruza entre as texturas e espertezas de um Arcade Fire e a solenidade explosiva de um The Killers. Pronto, acho que agora ficou fácil entender do que estamos tratando aqui.

Com letras falando de desajuste emocional, amor não correspondido e o peso que levamos nas costas nesta vida estranha de hoje, as canções de Frightened Rabbit mostram logo que Scott Hutchinson é bom vocalista e compositor, com senso equilibrado entre o sentimento e a canastrice necessária para dar gosto a tudo, mais ou menos na mesma relação que a gordurinha tem em relação à picanha lá no seu churrasco. Voltemos. Pois bem, as canções têm a assinatura musculosa de instrumentais seguros, com boas linhas de baixo, pianos melodramáticos na medida certa, bom trabalho de vocais de apoio, muitas vezes em falsete e uma tonalidade que oscila entre o cinza depressão e o negro noturno existencial, feito sob medida para os filhos da classe média viverem bons momentos de autocomiseração.

O single Death Dream resume bem esta abordagem, proposta pela banda e por Dessner: climas introdutórios solenes e vocalizantes são conduzidos por pianos sacros e um ambiente de crescendo vai sendo erguido, com direito a explosões no refrão mais à frente. É uma fórmula batida, mas que, se bem manipulada, ainda rende bons frutos, o que acontece aqui. O contraste com a faixa seguinte, a boa Get Out é evidente: em tom mais leve, com levada de bateria eletrônica e teclados de fundo, a canção caminha para uma concepção menos solene, mas igualmente com espaço para pequenas e controladas hecatombes no refrão, sob medida para multidões em arenas ao redor do mundo irem ao delírio. I Wish I Was Sober é a terceira faixa e, de certa forma, fecha o ideário da banda: com mais pianos, início climatizado e vocais límpidos, Scott discorre sobre sentimentos pisados, desconsiderados e oportunidades perdidas e se lamenta por, literalmente, enfiar o pé na jaca em termos de substâncias ilícitas.

Ainda há bons momentos pelo álbum. 400 Bones tem bom clima acústico de pianos e vocais, Die Like A Rich Boy guarda belo dedilhado de violão acústico e uma certa aura solene que vai chegando aos poucos e The Wreck, antepenúltima faixa do álbum, mostra-se como a mais interessante criação por aqui, com leveza pianística entrelaçada com guitarras e bons timbres de voz, tudo embalado num bom pacote. Frightened Rabbit tem competência e oferece um bom e competente disco de Rock moderno, algo que vai agradar a muitos fãs por aí.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.