Resenhas

Funny Alexander – Sorte Que Tem O Amanhã

EP de estreia do duo gaúcho reúne a atmosfera densa e cristalina do dream pop com letras de teor cotidiano e existencial

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Ano: 2022
Selo: Independente
# Faixas: 5
Estilos: Indie Pop, Dream Pop
Duração: 17'
Produção: Iuri Freiberger e Ric Olivera

É curioso que, de todo o universo cinematográfico, Ric Olivera e Bela Expedito tenham escolhido um filme de Ingmar Bergman para batizar sua banda. Funny Alexander é, na verdade, um trocadilho com o filme Fanny & Alexander (1982), e a curiosidade dessa escolha reside no fato de que tanto o diretor sueco quanto o duo gaúcho parecem se interessar pela mesma linguagem: a do cotidiano surreal. Se por um lado os filmes de Bergman partem do mundano para fazer uma análise meticulosa e profunda de dramas psicológicos, o dream pop que permeia as composições do duo caminha em direção semelhante, partindo de melodias simples e construindo camadas e camadas que reverberam infinitamente. Ambos as expressões encontram no que há de corriqueiro a matéria-prima para tecer o absurdo-hipnótico. E o EP de estreia do duo, Sorte Que Tem o Amanhã, aos moldes de Bergman, tem uma força narrativa poderosa.

Dos singles lançados entre 2020 e 2021, Funny Alexander mantém o inegável apelo pop como uma de suas principais marcas, estética que se une às texturas características do dream pop – ensolaradas e cheia de reverbs. Há ainda o flerte com a música psicodélica, realizado de maneira branda, comedida. É como se o duo nos guiasse para não irmos, digamos, “tão longe assim”, ainda que a vontade seja de se deixar levar pelas melodias e guitarras aconchegantes. Os sintetizadores, com timbres nostálgicos, nos localizam entre o sonambulismo dos anos 1980 e a parede sonora iluminada do shoegaze noventista. São elementos de naturezas diferentes que se unem de forma coesa, enquanto as letras – em inglês e em português – nos oferecem um espaço confortável.

Liderado pelo single “Um Passo a Mais”, o disco se abre aos poucos, como um despertar em que tudo acontece aos poucos, sem movimentos intensos demais. “Magical Lies” traz a ideia de como, às vezes, é melhor acreditar em uma mentira confortável, do que viver a realidade – e para ilustrar esse pensamento, o dream pop cai como uma luva, nos fazendo flutuar indefinidamente. “Dia de Paz” retoma as baladas radiofônicas dos anos 1990, porém arranjada de maneira mais eloquente, que transborda aquele estupor adolescente, como um típico hino indie pop. “Sorte” encerra o trabalho em um mergulho freak pela década de 1980, envolta em batida monótona e timbres peculiares. O esquisito, aliás, é grande atrativo do EP.

A sinceridade das composições e os arranjos aconchegantes – com leve ímpeto psicodélico – criam o espaço ideal para que o duo gaúcho Funny Alexander desenvolva seu dream pop de ares bergmanianos. E no EP de estreia Sorte que Tem O Amanhã, a dupla traduz, em som e atmosfera, a intersecção entre o surreal e o mundano, trilhando possíveis caminhos oníricos do cotidiano.

(Sorte Que Tem o Amanhã em uma faixa: “Magical Lies”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.