Resenhas

Future Islands – As Long As You Are

Após rotina exaustiva de turnês e pressão de cronogramas da gravadora, grupo revê seus processos criativos e entrega trabalho polido e refinado

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Ano: 2020
Selo: 4AD
# Faixas: 11
Estilos: Synthpop, Indie Pop
Duração: 44'
Produção: Gerrit Welmers, Samuel T. Herring e William Cashion

Future Islands é uma banda que se recupera gradualmente do preço que uma explosiva fama pode custar. Envoltos de uma aura oitentista misturada a elementos do Synthpop, a sonoridade do grupo cativou uma audiência assídua. Por consequência, seu auge comercial foi atingido em 2014 no disco Singles, um trabalho que rendeu não apenas um lugar privilegiado da Billboard por semanas consecutivas, mas uma aura de revelação Indie de extremo bom gosto. É possível claramente dividir a história da banda em antes e depois deste disco e o momento que sucedeu este grande boom talvez deixe marcas até hoje nas relações da banda.

Sob a pressão para alcançar as expectativas em um próximo registro – ao mesmo tempo em que se submetiam a turnês cada vez mais exaustivas e exigentes (culminando na apresentação do Coachella em 2017) –, o grupo apressou seu processo criativo e isto certamente impactou na qualidade musical construída até então. The Far Field (2017) é o momento que sintetiza essa apressada demanda – um trabalho com um ar levemente genérico e pouco marcante quando comparado a seus antecessores. Entretanto, o que poderia ser uma oportunidade para desanimá-los, revelou-se um fator precioso para que o grupo pudesse refletir acerca da importância de se respeitar seu processo criativo.

O que ouvimos em As Long As You Are é nada mais do que o produto desta reflexão. O sexto disco do grupo mostra claramente os efeitos de um momento criativo mais permissivo, relaxado e menos exigente do que o de The Far Field, algo que, além de representar a própria vontade da banda, foi praticamente uma obrigação frente à pandemia. Não apenas o processo de composição foi feito de forma remota, como a própria mixagem e masterização. Uma benção disfarçada. O formato online não permite uma comunicação tão ágil e, portanto, os instintos de podar ou estimular certas ideias necessitava de um tempo a mais de reflexão. A tendência de apontar defeitos na mixagem cedeu espaço para a compreensão desacelerada de cada coisa. E assim, temos um projeto mais leve e brando.

Certamente, As Long As You Are é um respiro. A predileção pelos sintetizadores típicos dos anos 1980 ainda permanece como marca inconfundível de Future Islands – mas a mudança mais significativa talvez ocorra na forma como estes elementos não são pensados de forma estereotipada, e sim como um recurso narrativo para construir faixas mais suaves. O disco é dançante, como seus antecessores, porém é mais delicado, ameno. Os timbres aqui escolhidos dão um aspecto nostálgico interessante e a mistura destes com batidas mais contemporâneas (frutos de uma relação intensa com o Indie do final dos anos 2000) imprimem uma sonoridade que o Future Islands nasceu para fazer. O respeito de seu processo criativo surte um efeito positivo, o de permitir essas aparentes “contradições”, que são na verdade lados de uma mesma moeda.

O vocalista Samuel T. Herring abre o disco com a mansa faixa “Glada”, quase como um Cid Moreira do Indie, em uma narração áspera, aliada a uma instrumentação lenta que constrói o humor do disco aos poucos. “Born In a War” levanta os ânimos com timbres fantasmagóricos dos anos 1980 somados a uma batida dobrada típica de bandas como Editors/White Lies. “City’s Face” dispensa as baterias para compor um tom mais Ambient, e a ausência de compassos rígidos permite construir sensações e humores mais expansivos e etéreos. “Plastic Beach” é o grande hit Pop do disco, digno de um refrão extremamente pegajoso – a faixa poderia facilmente ser colocada na trilha sonora de uma série cool.  Por fim, “Hit The Coast” sintetiza o disco colhendo os melhores elementos de cada momento: o aspecto Pop, os timbres nostálgicos, batidas envolventes, vocais poderosos.

O respiro dado por Future Islands para compor este disco se mostrou uma estratégia benéfica ao processo criativo. Longe de produzir algo genérico, a banda traz aqui uma sonoridade que respeita a influência oitentista que lhe rendeu a fama, enquanto dá um passo à frente. Repensa arranjos e cria uma atmosfera mais branda e refinada. É um trabalho inegavelmente Pop, mas um Pop sem metas e urgências.

(As Long As You Are em uma faixa: “Plastic Beach”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.