Resenhas

Fuzz – Fuzz

A psicodélica capa do disco e o nome dos envolvidos, Ty Segall incluso, não mentem, estamos diante do verdadeiro grupo de Rock em 2013

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Ano: 2013
Selo: In The Red
# Faixas: 8
Estilos: Rock & Roll, Garage Rock, Grunge
Duração: 36:00
Nota: 4.5
Produção: Fuzz

O Rock já foi um símbolo de atitude. Causava protestos, influenciava os jovens a se rebelarem e já foi mencionado como uma criação do demônio. A energia passada em acordes, distorções e ritmos rápidos pareciam entrar rapidamente na mente dos ouvintes que em transe se viam mais a vontade para gritar, pular e extravasar toda a energia guardada. Aos poucos a atitude foi se perdendo até que na década de 1990 o Grunge parecia trazer toda a rebelião, aspereza e os anseios de uma geração.

Novamente, com o passar do tempo, a atitude foi se tornando quase um nicho do gênero, guardada aos poucos que ainda procuravam se aventurar em seu peso e distorção. Ty Segall é um workaholic. Se não está gravando um dos seus “dez discos” anuais, ele está em turnês, sempre pensando em como deixar a sua marca na música. Em uma de suas novas empreitadas, o músico se une à Charlie Moothart e Roland Casio, larga a sua usual guitarra em Fuzz, e acaba formando um verdadeiro power trio de arrepiar a espinha de tanto Rock verdadeiro.

Se existe uma semelhança entre o Rock dos anos 1960 e o Grunge, ela consiste no poder de movimentar jovens e se tornar a voz de uma geração. Aqui, ambas acabam eclodindo em um projeto que pega o melhor de outros momentos Segall, o Garage Rock virtuoso e que poderia muito ter saído de Seattle e não de São Francisco, e os mescla com o Classic Rock de nomes como Jimi Hendrix e The Who. Ao mesmo tempo os vocais do cantor nunca foram tão Punk, algo que diz muito sobre esta salada de sabores musicais.

Earthen Gate expressa bem toda esta mistura. A introdução distorcida abrindo espaço para uma linha de guitarra delineada nos pequenos detalhes de sua expansão parecem nos levar à outros tempos. Aos poucos o ritmo acelera-se, o peso dispara, e nos vemos batendo cabeça compulsivamente. Ty relembra os bons momentos de Johnny Rotten do Sex Pistols, gritos de energia e atitude. No entanto, o virtuosismo dos músicos aqui é notado na compreensão interna de um grupo extremamente sincronizado.

Sleigh Ride impressiona pela fluidez de tempo entre todos instrumentos, nenhum se perde em momento algum e todos parecem transparecer as mesmas intenções. Baterias se confundem com acordes de guitarra que elevam sua intensidade através de um baixo vistoso. É impossível não vibrar com cada faixa aqui como se estivéssemos diante do grupo em um concerto. Aliás, toda a gravação do disco parece ser feita em um take só, como um jam session organizada mas sem fim.

Improvisações, pausas e retornos inesperados transparecem atitude e energias poucas vezes vistas em gravações de estúdio no ano de 2013. O Grunge surge em What’s My Head? canção que tem na voz de Segall o seu grande trunfo. Baixa, ela eleva-se no refrão enquanto os instrumentos seguem a mesma tendência. Quando citamos Jimi Hendrix, ele surge na perfeita recriação do guitarrista vista em Raise. Riffs de guitarra que são seguidos por baixo e bateria, ambos conseguindo curiosamente te permitir “dançar” com tanta vibração e peso. As transições e solos de guitarra aqui são excelentes e fazem qualquer hendrixiano sorrir de alegria.

Agora quando mencionamos The Who no projeto, nos referimos à atitude das apresentações ao vivo do grupo. Na verdade, esqueça qualquer disco dos britânicos e corra para escutar um dos maiores concertos de Rock já gravados no duplo e gigantesco [Live At Leeds](). Faixas com intermináveis solos mas que não conseguem deixar você piscar com tamanha velocidade e ritmo, contradizem totalmente os trabalhos de estúdio de Pete Townshend, Roger Daltrey e companhia. Faço este pequeno parênteses pois ao fechar os olhos e somente prestar atenção ao som, podemos constatar o trio interagindo com seus instrumentos e parecendo “jogar” para o público.No final de Loose Sutures, por exemplo, temos direito à solos de baixo, bateria e o som do amplificador ecoando no fundo como se fosse terminar a canção.No entanto, tudo é esquecido e a rapidez da estrutura da faixa é retomada com um solo de guitarra extremamente nervoso.

One, única faixa instrumental de todo o projeto é a síntese de tudo que vimos do Fuzz. Jam session enérgica com espaço para diversas linhas distintas como se escutássemos várias canções dentro de uma só. Gravada de uma vez, sem auxílio de computadores e utilizando-se somente de talento e estamina dos músicos, a faixa nos faz pensar porque o Rock de verdade poderia ter perdido tanto espaço assim. Temos aqui atitude e instrumentistas de verdade, capazes de permitir uma viagem sonora enérgica e que poderia muito bem terminar com sua mãe ou vizinhos dizendo “abaixa isso aí”. Mas é exatamente desta raiva extravasada que precisamos, uma maior experimentação e vibração dentro da música, algo que Ty Segall parece nunca deixar de lado, A única verdade é que a sua nova banda tem a capacidade de finalmente demonstrar o seu talento à todos aqueles que procuravam um pouco mais de Rock na música atual.

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BOM PARA QUEM OUVE: Ty Segall, Cage The Elephant, The Who
ARTISTA: Fuzz

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.