Resenhas

Gabriel Ventura – Pra Me Lembrar de Insistir

Músico troca a distorção por arranjos mais delicados e professa seu amor numa ode à persistência, à continuidade e à manutenção dos afetos

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Ano: 2025
Selo: Balaclava Records
# Faixas: 14
Estilos: Indie Rock, MPB
Duração: 42'
Produção: Patrick Laplan, Gabriel Ventura

“Olha só, como é ter tudo por um triz / só me mostra o quanto eu quero / e luto, e brigo pra me lembrar de insistir”. São versos como esse (de “Lamber os Dentes”) que fazem de Pra Me Lembrar de Insistir uma verdadeira carta de amor, não apenas a quem se ama, mas também à Música (sim, essa com M maiúsculo). Gabriel Ventura desvela aqui sua relação com a arte e o fazer artístico, por diversas vezes confundindo o ouvinte sobre para quem ou para o que ele canta. E faz diferença? Talvez não. O músico professa seu amor numa ode à persistência, à continuidade, à manutenção dos afetos.

Ventura envereda aqui por sonoridades mais sutis, por timbres mais quentes. Ele troca sua companheira de longa data, a guitarra, por um instrumento que o acompanha há ainda mais tempo: o violão. Diferente do que apresentou como um terço da banda Ventre ou em seu disco de estreia solo, Tarde (2022), Gabriel troca a distorção ruidosa por arranjos mais delicados, detalhados e com espaço para que o silêncio também nos diga algo. Grande parte das faixas nasce do violão e da percussão, com algumas ganhando ainda mais corpo com piano (tocado por Vitor Araújo em “Trovejar”), harpa (de Arícia Ferigato em “Fogos”), clarinete (de Aline Gonçalves em “Toda Canção”), baixo acústico (de Yuri Pimentel) e metalofone (tocado pelo próprio Gabriel em “Acalento”).

São arranjos que revestem a poética de Gabriel, como se guiassem ainda mais o ouvinte na direção pretendida pelo músico. Há o amor entregue e desesperado (como “O Que Quiser de Mim” ou “Acalento”), o amor cotidiano (“Cor de Laranja”), o amor antigo que ganha novas cores com o tempo (“Brusco”), e a mistura de medo e maravilhamento (“Fogos”). Há músicas que borram a linha entre o amor romântico e o amor pela música (“Lamber os Dentes” e “Toda Canção”), e também aquelas que falam sobre o próprio processo do fazer artístico (“Tanto pra Dizer”) – cada uma dosando de forma diferente quase os mesmos ingredientes para chegar a resultados distintos.

Gabriel Ventura faz em Pra Me Lembrar de Insistir um manifesto ao amor, um manifesto à música. Sobretudo, Gabriel fala sobre resistência e resiliência não só como um ato de coragem, mas como uma necessidade. A insistência naquilo que nos faz bem, que nos move, que nos dá prazer, requer sim algum esforço, requer sim algum trabalho, mas, como diria ele em “Cor de Laranja”: “eu faço birra, mas eu amo estar aqui”.

(Pra Me Lembrar de Insistir em uma faixa: “Lamber os Dentes”)

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts