Resenhas

Gal Costa – Estratosférica

Novo álbum da cantora celebra seus 50 anos de carreira olhando pra frente

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Ano: 2015
Selo: Sony
# Faixas: 14
Estilos: MPB, Pop Alternativo, Eletrônica
Duração: 46:21
Nota: 3.5
Produção: Moreno Veloso e Kassin

Até hoje não sei dizer quem é a maior cantora brasileira. Desde a morte de Elis Regina (1982) que Gal Costa reina quase absoluta nesta posição, talvez ameaçada por sua amiga Maria Bethânia, que, apesar de superlativa, nunca foi capaz de exibir a mesma intimidade que Gal (assim como Elis) sempre teve com segmentos musicais como o Pop e o Rock. Ao contrário de Bethânia, ela manteve-se em sintonia mais afinada com o que se produzia ao redor do mundo ou, fruto de seu espírito questionador e das boas e informadas companhias que sempre estiveram por perto. Completando 50 anos de carreira e 69 de idade, Gal lança Estratosférica, seu 38º álbum (incluindo registros ao vivo e discos colaborativos), mostrando que está na ativa, ouvindo, percebendo e cantando o que acontece no mundo e no Brasil.

Com produção de Kassin e Moreno Veloso, Estratosférica provoca surpresa em mesmo grau que seu antecessor, Recanto, idealizado e produzido por Caetano Veloso e Moreno. Se aquele disco causava espanto pelo abraço da cantora à uma Eletrônica lenta e esquisita, engendrada pela dupla de produtores, este novo trabalho reconfigura as cançõesfaixas de modo que soem como qualquer canção num álbum de Gal, escolhidas, eleitas, acarinhadas, prontas para se inserirem numa galeria que contém alguns clássicos da música brasileira em 50 anos. Não é pouco. Por isso, em nome desta contemporaneidade espontânea, Gal escolheu gravar composições de gente nova e atuante, de Mallu Magalhães a Céu; de Marcelo Camelo a Thalma de Freitas, sobrando espaço para Caetano Veloso (em parceria com o filho Zeca), Marisa Monte (com Arnaldo Antunes) e Milton Nascimento (com Criolo), entre outros, conferindo a diversidade necessária à empreitada.

A maior qualidade de Estratosférica é a sua absoluta isenção do passado, algo que poderia ser justificado num momento de celebração de jubileu de prata, mas, longe disso, comporta-se como um tradicional álbum de Gal, com acertos e erros, retrato fiel do tempo em que se produz. Amor Se Acalme, de Marisa Monte e Arnaldo Antunes, é um híbrido adorável de Valsa com canção de ninar, relembra algum tempo ido, mas não se envolve com a estética passada, soa mais como uma crônica do presente, cheia de referência no hoje e não no antigamente. Sem Medo Nem Esperança, de Antônio Cícero e Artur Nogueira, tem guitarras e andamento Rock, com direito a órgão Hammond e tom raivoso. Jabitacá, de Júnio Barreto, tem dolência meio Reggae, meio nordestina, lembrando algo setentista da própria Gal. A faixa-título, composta por Céu, é adorável, cheia de metais (frutos do último arranjo feito por Lincoln Olivetti) e guitarras serpenteantes, com clima ensolarado de varanda sobre uma Salvador ideal e não existente.

Um andamento de Samba Reggae levíssimo conduz Ecstasy, outra canção praiana, arejada, oriunda do encontro entre João Donato e Thalma de Freitas, perfeitamente entrosados. Espelho D’Água, de Marcelo Camelo e seu irmão, Tiago, reproduz o clima lento e contemplativo que suas canções mais recentes exibem, ganha mais profundidade e drama na voz de Gal, enquanto Dez Anjos, de Criolo e Milton Nascimento, é igualmente lenta, mas exibe um tom noturno e triste. Quando Você Olha Pra Ela, ensolarado sambinha de Mallu Magalhães, cabe bem no registro de Gal, mas talvez sua brejeirice se revele mais completamente na interpretação da própria autora. Por Baixo, de Tom Zé, é um samba tradicional com arranjo eletrônico interessante e bastante adequado, mostrando que Gal ainda tem recursos de sobra para se adaptar a abordagens fora do óbvio.

Caminhando para o encerramento do álbum, temos um Blues jovemguardista em Anuviar, na qual Moreno Veloso – que assina a canção, junto com Domenico Lancelotti – aproveita para brincar com o andamento e inserir seus já conhecidos efeitos especiais de videogame, desnecessários aqui. Você Me Deu, de Caetano Veloso e Zeca, também é assaltada pelos ruídos sintéticos da produção, tendo seu resultado comprometido quase completamente. A regravação do clássico de Johnny Alf, Ilusão À Toa, enfim reconecta a cantora com seu passado de intérprete e “reinterprete”, conferindo novas colorações a canções que já parecem ter dono. Gal conduz com calma e carinho, mostrando como se faz.

Estratosférica não faz feio na discografia da cantora, muito pelo contrário e funciona muito mais que um atestado de vida. Longe das amarras estéticas e muito mais tranquilo em seu próprio ritmo, é um álbum cheio de virtudes, ainda que a produção teime em interferir demais em alguns momentos. Gal, dona do terreiro, não se abala e arremete para o futuro.

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BOM PARA QUEM OUVE: Bebel Gilberto, Céu, Caetano Veloso
ARTISTA: Gal Costa

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.