Gallant – Ology

Disco de estreia traz carga extremamente pessoal e tocante do cantor

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Ano: 2016
Selo: Mind of a Genius
# Faixas: 16
Estilos: Experimental, Alt-R&B, Eletrônico
Duração: 52:42
Nota: 4.5
Produção: ZHU, Adrian Younge, STINT, Josh Abraham e Oligee
SoundCloud: /tracks/212522306

Christopher Gallant foi por muito tempo um fantasma oculto nas trevas. Com um pequeno EP lançado em 2014, o jovem de 24 anos mostrava pouco a pouco pedaços de sua introspectiva personalidade e pequenas doses de um talento que revelava ser de grande amplidão. Entretanto, cada single que antecipava sua estreia, ironicamente, nos fazia entender cada vez menos o jovem *Gallant.

Não que eles fossem confusas ou de qualidade duvidosa, mas os temas expostos e a sonoridade experimental e altamente emocionante apenas esboçavam a complexa personalidade do cantor/compositor, ficando difícil entender como os pontos se ligariam para formar sua identidade. Chame de estratégia de marketing ou puro acaso, mas juntar esse quebra cabeça e solucionar a misteriosa persona de Gallant é exatamente o que fez Ology ser extremamente icônico e, talvez, um dos melhores trabalhos deste ano.

Gallant caminha por um terreno já conhecido seu: as sombras, e nada comprova isto melhor do que a forma como a parte instrumental de suas composições é moldada. Optando sempre por reverbs espaçosos, ambientações obscuras e batidas lentas e precisas, fica claro que ,para entender Ology, você deve sentir a densidade e a beleza que envolvem suas palavras e pensamentos. Os diversos singles lançados previamente (Open Up, Bourbon e Weight In Gold), que outrora dificultavam a visão completa de seu trabalho, agora se revelam como vértices distantes de um polígono conectado por arestas de extrema autorreflexão, sentimentalismo e poesia infinita.

Entretanto, o grande destaque fica por conta do talento vocal do jovem. Capaz de atingir notas inacreditáveis, é por meio de sua voz que Gallant nos conta sua dor e, quando menos esperamos, estamos debulhados em lágrimas. Se choramos, não é só porque nos relacionamos com a dor da separação (“I’ll take the blame for the both os us”) ou da angústia da procura da felicidade (“Where’s the peace of mind I was told, I was told”) narradas em suas belíssimas letras, mas porque Gallant não quer esconder suas dúvidas e anseios, prefere celebrá-los. É como se Ology fosse uma bíblia e o ato de escutá-lo, uma missa na qual refletimos e regojizamo-nos ao testemunharmos a trajetória dura e recompensadora de passar por todos os desafios narrados pelo cantor.

É um trabalho muito sincero, e isso automaticamente faz Gallant passar de um fantasma esboçado para um homem extremamente convicto de sua história e que traduz sua vivência em canções tocantes e profundas. Um dos trabalhos mais ambiciosos e coesos do ano, trazendo à tona uma nova perspectiva sobre a depressão e ansiedade. Ao mesmo tempo que melancólico, é um disco extremamente revigorante. Gallant é mais do que um poeta que conhece sua dor: ele é um pregador e Ology é sua louvação definitiva.

Amém.

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BOM PARA QUEM OUVE: Seal, Sam Smith, James Blake
ARTISTA: Gallant

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.