Resenhas

Garbage – Strange Little Birds

Novo disco confirma a velha classe da banda

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Ano: 2016
Selo: Vagrant
# Faixas: 11
Estilos: Rock Alternativo,Eletrônica, Pop Alternativo
Duração: 52:40
Nota: 3.5
Produção: Butch Vig

Bandas elegantes, segundo o Manual de Etiqueta Pop/Rock imaginário, têm carreiras longas e discografias econômicas. Simples assim. Tal postulado – jamais escrito, mas louvado – mostra que tais artistas só entraram em estúdio quando tinham algo realmente importante para comunicar a seus públicos, que reafirmasse ou redefinisse a admiração que estes mantinham em relação às obras que eram lançadas. Garbage é um exemplo clássico de elegância Rock: surgido em meados dos anos 1990 como uma alternativa Pop, Industrial e Grunge ao que Butch Vig, produtor de discos como Nevermind, de Nirvana, vinha fazendo. Mais ainda: a ideia compreendia Butch como músico, pilotando a bateria desta banda. A seu lado, outras raposas de estúdio, como Steve Marker e Duke Erikson e, nos vocais, a impressionante beleza celta/ruiva/dark de Shirley Manson, surgida do anonimato para as mentes poluídas daquele meio de década. O resto, felizmente, é história.

Não passa pela cabeça dos integrantes da banda mudar qualquer aspecto de sua proposta musical inicial, pelo contrário. Todos os lançamentos de Garbage, desde a estreia até este novíssimo Strange Little Birds, o sexto álbum de sua trajetória, passam pelo exposto acima: música Pop com pitadas de Industrial, guitarras crocantes com algum DNA Grunge perdido na tradução, certa dose de Eletrônica roqueira e os vocais de Shirley, amarrando o produto de forma pra lá de satisfatória. Não seria exagero dizer que sempre foi uma banda eminentemente Pop, mas com sua assinatura sonora muito bem urdida e disfarçada sob um eficiente marketing do bem. Mais ou menos como Foo Fighters quando surgiu, não por coincidência, na mesmíssima época, no rescaldo do Grunge. Só que o primeiro disco de Garbage é melhor e mais interessante que toda a obra de David Grohl.

Strange Little Birds tem méritos de sobra para manter velhos fãs ligados na banda e converter hordas de descontentes com certa superficialidade que música Pop exibe hoje em dia. Sabemos que Garbage jamais será mainstream, mas pode – e deve – ultrapassar as fronteiras do Alternativo roqueiro e emplacar mais e mais. Para isso, as onze faixas do disco cumprem esta missão de popularizar o grupo e espalhar sua mensagem para mais e mais pessoas, algo que eles ainda não tinham empreendido de forma, digamos, tão ostensiva e legal. A abertura, Sometimes, funciona como um cartão de visitas, com um piano atmosférico que serve de pano de fundo para programações de teclados, bateria e a voz sussurrada de Shirley, como nos velhos tempos, chamando os incautos como se fosse uma sereia pervertida. Logo em seguida, vem o single Empty, eficiente, grudento e bem feito como só ele. A partir dele o ouvinte já deverá se sentir fisgado.

Para quem já é familiarizado com as composições coletivas da banda e com a importância da presença de Shirley Manson no combo, o álbum funciona como um caminho sem novidades estéticas, algo que, provavelmente, tal público não esperava, nem desejava. Para os neófitos, entretanto, o bom uso de elementos Rock e eletrônicos, aliados ao objetivo Pop de grudar melodias no cérebro do ouvinte é algo bem vindo. A química funciona tanto em composições maiores, como a claustrofóbica Blackout, que vara os seis minutos, como nas mais curtas, caso de Teaching Little Fingers To Play, uma desencarnada balda gótica, bonita que só ela. No meio do caminho, há belezuras perversas e pervertidas, caso de Even Though Our Love Is Doomed, na qual Shirley fala tudo o que seu amante/companheiro jamais gostaria de ouvir e que, ainda assim, ele jamais iria querer que não fosse dito. Outras belezuras surgem na boa So We Can Stay Alive, que começa lenta e sombria, explodindo em guitarras sintetizadas mais para frente ou na arrepiante Amends, que encerra o disco com pinta de apocalipse subentendido, subterrâneo, subjetivo.

Garbage é cria dos anos 1990 que soube se manter imune ao tempo. Mesmo quando revisita seu modus operandi, o faz com naturalidade tal que parece novidade. Se levarmos em conta o número enorme de gente que jamais foi apresentada ao inferno aveludado de um álbum da banda, este novo trabalho cumpre sua função de educar os mais jovem. Façam o favor.

(Strange Little Birds em uma música: Empty)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.