Resenhas

Gary Clark Jr. – The Story Of Sonny Boy Slim

Segundo disco de inéditas coloca jovem bluesman na primeira divisão

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Ano: 2015
Selo: Warner
# Faixas: 13
Estilos: Blues, Blues Rock, R&B
Duração: 53:42
Nota: 4.0
Produção: Gary Clark Jr

As primeiras notas de The Healing, canção que abre este segundo álbum de inéditas do jovem cantor/compositor/guitarrista Gary Clark Jr, mostram o quanto seu trabalho é interessante. Mais que um revisionista do Blues, Gary é um atualizador intuitivo do estilo, um cara que tem raízes na cantoria triste do ir e vir dos negros pelos Estados Unidos em busca de justiça e carinho, mas, ao mesmo tempo, é um sujeito nascido no fim do século 20, com uma carga de informações e referências que permeiam o resultado de sua música, conferindo uma contemporaneidade espontânea à sua versão de Blues, construída no calor das memórias e tradições que ele não viu, mas que se adaptaram ao mundo de hoje. Parece fácil e banal o entendimento do estilo em tempos tão diferentes do seu surgimento, mas Gary consegue tornar tudo coerente.

Sonny Boy Slim é o apelido que o músico tem desde que nasceu. A intenção do álbum é resgatar essa conexão entre origens e direções e fazer a música de Gary falar por si mesma. O sujeito é amado por todos, de Bill Clinton a Beyoncé, muito por conta de sua figura simpática e uma simplicidade cativante. Mesmo com o sucesso do trabalho anterior, o bom Blak And Blu, a opção por gravar este novo álbum na sua cidade natal de Austin, Texas, mostra que, mesmo com a fama alcançada, não há motivo para se falar em mudança de ares ou descompromisso com as origens. O grande desafio do disco é mostrar aos puristas do Blues – creia, eles ainda são muitos – que o estilo precisa de renovação e isso não significa dizer que há necessidade de algum moleque chegar e solar loucamente com uma guitarra ou compor alguma canção falando de tristeza e abandono, exatamente como se fazia nos anos 1950, mas, sobretudo, alguém que faça o que Gary Clark se dispôs (e fez) até agora, ou seja, inserir a cidade, a modernidade, a dureza do trabalho nos tempos de hoje, o racismo, a não-aceitação, as questões sociais, tudo o que ainda aflige minorias ao redor do planeta em forma de música. É como se o Blues fosse universal, pertencente a quem o levar para passear pelo caminho certo. Gary faz isso.

O apito da guitarra ao fim de Grinder, a segunda canção, faz com que saibamos que ele tem completa noção de que um tema do estilo pode soar barulhento e expansivo ao mesmo tempo e ainda ser totalmente fiel ao que se propõe. A introdução cinematográfica e o andamento tangenciando o Reggae são belos detalhes de Star, com guitarra e baixo a caminho da glória total, além dos vocais em falsete, unindo uma óbvia têmpera Soul contemporânea na coisa toda. Our Love também tem alma decalcada pelos vocais sublimes, além de condução elegante de órgão e ritmo Gospel da melhor tradição negra americana. Church tem levada de violão em crescente, gaitas atemporais e engordadas em alguma granja do Sul dos Estados Unidos e mais vocais espirituais, olhando para o céu e perguntando as razões para tudo isso, seja para o bem ou para o mal. Hold On incorpora pianos em gotas ao ideário, unindo escolas bluesísticas de vários lugares, mas dando passagem a uma levada de R&B urbano e totalmente atual, que casa muito bem com a proposta de Gary.

Cold Blooded tem mais chacundum de guitarra, levada elegante com metais subtendidos e baixo virando laje lá no fundo. Wings tem total ressonância alternativa e contemporânea, pegando ambiência do Hip Hop, seja em samplers e sonoridades, seja no próprio espírito que permeia a canção. BYOB já vem na contramão, totalmente sintonizada com alguma parada de sucesso dos anos 1960, tocada nas ondas curtas do radinho que fica na cozinha, trazendo sonoridades das gravadoras Stax, Chess e Motown, tudo ao mesmo tempo, sem ultrapassar a marca de um minuto de duração. Can’t Sleep é uma surpreendente concessão a uma espécie de Blues dançante, meio eletrônico, meio orgânico, meio banda de Nu Disco novaiorquina do início dos anos 2000, lembrando, ao mesmo tempo, The Roots e The Rapture. Stay começa com guitarra saturada, timbres de baixa afinação, mostrando que Gary Clark também tem olho vivo para os revisionistas da estética na qual mergulha, como The Black Keys e Jack White, enquanto se entrega a uma levada stoniana safra 1966 em Shake, resgatando a odisséia Blues no ultramar, que gerou o próprio Rock como o conhecemos, a partir dos anos 1960, e que serviu de pavimento para essa estrada musical do sujeito. O fecho está numa adorável Down To Ride, com a produção intencionalmente datada para os anos 1980, com baixo e teclados confortáveis e a voz de Gary planando na melhor escola de falsetes Smokey Robinson.

Sonny Boy Slim é uma adorável declaração de vida, intenções e um pedido de “confiem em mim” deste simpático representante da música negra mais moderna feita no mainstream hoje em dia. O cara é bom, tem muita lenha pra queimar e promete. Caia dentro.

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BOM PARA QUEM OUVE: Jack White, The Roots, The Black Keys
MARCADORES: Blues, Blues Rock, R&B

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.