Resenhas

Gavilán Rayna Russom – The Envoy

Inspirada em um romance de Ursula K. Le Guin a artista à frente dos sintetizadores do LCD Soundsystem finalmente alça voo solo

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Selo: Ecstatic
Estilos: Eletrônico, Industrial, Ambient
Duração: 43’
Produção: Gavilán Rayna Russom

Gavilán Rayna Russom está à frente dos sintetizadores no grupo americano LCD Soundsystem desde o início dos anos 2000. Ao longo de sua trajetória, fez parte de vários outros projetos como Black Leotard Front, Black Meteoric Star ou The Crystal Ark. No entanto, só agora a artista debuta na carreira solo, assinando seu primeiro álbum com o nome próprio. The Envoy explora o mesmo o universo da Música Eletrônica, mas possui uma característica mais cósmica, extraterrena. 

Majoritariamente instrumental, pontuado apenas por algumas narrações da artista, o disco revela sua profundidade em uma dimensão conceitual. Transgênero, a Gavilán traz uma pesquisa de interesse autobiográfico para sua obra. Sua experimentação estética está aliada explorando e desconstruindo as estruturas sociais em torno de concepções binárias. Partindo da construção dos próprios sintetizadores, ela explora a ideia de síntese, borrando os limites de estruturas até então separadas, unindo a emoção com a tecnologia, a teoria com a expressão e o espiritual com a vida cotidiana.

Não por acaso, portanto, o LP mescla a linguagem Industrial com a música Ambient criando um universo muito particular. A inspiração vem da literatura: The Envoy explora ideias sobre identidade de gênero a partir do romance de Ursula K. Le Guin, intitulado The Left Hand Of Darkness. O livro descreve um planeta povoado por uma espécie alienígena ambissexual. Por isso, um clima de ficção científica, algo de mágico e levemente aterrorizante imperam em músicas como “Kemmer”, “I Bleed I Weep I Sweat” ou “Discipline of Presence”.

As batidas eletrônicas de Russom também evocam a vida noturna efervescente de cidades como Berlim. A artista postou recentemente um excelente relato em seu Instagram, vestindo uma jaqueta da patrulha da fronteira do Muro, que monitorava a atividade na divisa entre o lado ocidental e o oriental: “Meu trabalho é realmente sobre fronteiras e divisões; políticas, sociais, criativas, sexuais, psicológicas, espirituais … e como a liminaridade provocada pelos fenômenos de transe se torna uma maneira de curar a dor que os limites impostos pelas tecnologias estatais, carcerais, de vigilância e de marketing criam. Fronteiras são fenômenos do pensamento binário. ”

The Envoy, portanto, busca uma espécie de cura, de apagamento de fronteiras através de música espectral que nunca se define permanentemente. Seu andamento intuitivo, sua percussão subentendida e timbres oscilantes levam o ouvinte a uma experiência fora do corpo. Mesmo que balizado pela teoria, Russom constrói uma mensagem que é captada pelos ouvidos, mas que pode ser experimentada pelos poros.

(The Envoy em uma música: “Kemmer”)

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Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.