Gengahr – Where Wildness Grows

Banda inglesa tem formosura Pop acima da média

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Ano: 2018
Selo: Transgressive Records
# Faixas: 12
Estilos: Rock Alternativo, Indie Rock, Pop Alternativo
Duração: 45:12
Nota: 4.0
Produção: Neil Comber

Tenho por hábito conservar uma lista no Spotify com as melhores músicas que ouço no ano. Lá estão as CEL 2016, 2017 e, agora, a 2018. Enquanto pesquiso e resenho um disco, vou colocando lá as canções que me chamam atenção. Vejam, eu sou um amante das faixas, especialmente as que têm elementos Pop bem colocados. Acho que a canção popular é uma ferramenta tão poderosa quanto banalizada. Quando ela é bem utilizada, com boas sacadas, bons ganchos, boas ideias de arranjos, o velho coração do crítico é logo inundado de felicidade. Digo isso porque, das doze faixas deste ótimo Where The Wilderness Grows, segundo álbum do grupo inglês Gengahr, nada menos que oito foram parar na dita cuja lista. Ou seja, dois terços do disco. É uma média muito alta, quase nunca alcançada. Estes sujeitos da periferia de Londres têm algo de especial. Mesmo que eles tenham escolhido seu nome por conta de um Pokémon.

A própria banda, um quarteto liderado pelo vocalista Billie Marten, é unânime em dizer que o primeiro trabalho, A Dream Outside, lançado há dois anos, não saiu como esperado. Apesar de fazer algum ruído na cena alternativa londrina e colocar o grupo na estrada, o disco é desconsiderado. Este segundo álbum seria então decisivo para a realização pessoal e artística dos caras, além de mantê-los no gosto do público crescente. Felizmente a expectativa e recepção parecem indicar que o público de Gengahr tende a aumentar e a banda a ser a próxima aposta britânica da vez. Fico na torcida.

A música que Gengahr faz não é só Pop. Há elementos de um Rock pós-segundo verão do amor, saído daquela onda das franjinhas ácidas do fim dos anos 1980, mas que ainda não era Britpop. Há melodias muito ganchudas por aqui, mas os diferenciais vão para o uso de teclados e guitarras nos arranjos e para a voz de Billie Marten, que lembra vários vocalistas ao mesmo tempo, de Geddy Lee a Brett Dannen, com agudos e falsetes que podem ser irritantemente agradáveis ou agradavelmente irritantes, dependendo do seu estado de espírito e de uma ou outra canção. No fim das contas, elas, as canções, acabam – felizmente – sobrepujando qualquer informação descolada sobre a banda, seu estilo ou o rótulo de seu som. A que logo chama atenção é Mallory, que alia teclados de DNA oriental, no sentido clássico do gênero, com andamento que vai e vem e vocais doces que fazem par dançante com guitarras orbitantes. Pull Over já tem algo mais modernete, seja nas batidas sintetizadas, seja no dedilhado guitarrístico, mas tudo isso é pouco se for comparado com a doçura da melodia, que logo se espalha. I’ll Be Waiting tem andamento e uso de guitarras que poderia estar numa fita demo de qualquer banda alternativa inglesa circa 1984/85. E isso é um baita elogio.

A faixa-título é outro bom exemplo da sonoridade do grupo. Começa lenta e climática, vai evoluindo para uma canção pop no melhor sentido do termo e estoura em guitarras lá pelo segundo minuto, seguindo assim até o final, quase na casa dos cinco minutos. Blind Faith é mais um exemplo de faixa climática, mas de outro gênero, começando logo com guitarras pirotécnicas e teclados ostantatórios, que vão se adaptando à melodia e compondo o todo. Carrion também investe no volume mais alto como contraste ao silêncio, mas tem um andamento que pode até parecer algum registro de The Smiths lá por 1985. Left In Space é uma bala Soft de psicodelia contemplativa, com harmonia inestimável, vocais glam, guitarras e bateria assistencialistas, que jogam a favor do time. O grande destaque, no entanto, é o admirável arranjo de teclados, que atinge a estratosfera.

Gengahr é exceção entre as bandas de Rock em atividade. Sem exageros. Há melodia, inteligência e uma preponderância assustadora de ótimas composições e ideias. Vamos seguir essa galera de perto porque boas notícias virão com certeza. Um grande disco de estimação para 2018.

(Where Wilderness Grows em uma música: Mallory)

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BOM PARA QUEM OUVE: Wolf Alice, Blaenavon, MGMT
ARTISTA: Gengahr

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.