Resenhas

Ghostface Killah & Adrian Younge – Twelve Reasons to Die

Membro do Wu-Tang Clan cria obra orquestada teatralmente que combina cinema e música, trazendo um interessante e inovador disco de Hip Hop

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Ano: 2013
Selo: Soul Temple Records, RED Distribution
# Faixas: 12
Estilos: Hip Hop
Duração: 39:04
Nota: 4.0
Produção: Adrian Younge

Ghostface Killah é um dos membros fundadores do Wu-Tang Clan, um dos maiores e melhores coletivos de Rap que já tivemos a chance de escutar. Conhecido pela sua habilidade única de contar histórias e incorporar personas aos seus versos, o rapper chega ao seu décimo disco solo firmando uma parceria com o compositor Adrian Younge em Twelve Reasons to Die.

Na obra, Killah e Younge procuram contar uma história baseada em um das famosas personas do rapper, Tony Stark. Sim, ele mesmo, o Homem de Ferro. No conto, o multibilionário super herói se envolve com um chefe da máfia italiana, DeLuca, e acaba sendo assassinado após se envolver com a filha do chefão. Os seus restos são derretidos e transformados em doze vinis que, se tocados simultaneamente, evocam a ressurreição de Tony, sob a faceta de Ghostface Killah. Complicado e viajado? Certamente, mas as habilidades teatrais do rapper deixam tudo muito mais intenso e verossímil, além do fato de o lançamento do disco vir acompanhado de uma história em quadrinhos, contanto em mais detalhes a saga do Ghostface.

Os arranjos feitos por Younge são bem inspirados, passando pelo filmes de gangsteres e western spaghetti, claramente inspirados no mestre das trilhas sonoras Ennio Morricone. Tudo parece grandioso e uma orquestração de banda completa pode ser sempre vista, como na faixa inicial Beware of the Stare, por exemplo. A mistura ao final é um ponto de intersecção entre as inspirações cinematográficas e o Hip Hop dos anos 1990. Backing vocals dão a sensação de que estamos diante de uma película que é somente escutada e imaginada.

Versos violentos, nada mais justo diante de uma história de vingança, são jogados a cada faixa como em I Declare War com Master Killa do Wu-Tang: “I declare war, war on De Lucas Bulletproof jet planes, nigga, you can’t shoot us Can’t stop my reign or terrorize the power”, enquanto backing vocals dramáticos transparecem uma guerra iminente. Blood On the Cobblestones traz os grandes momentos do Hip Hop da década de 1990 com scratches no vinil, semelhantes ao que Beastie Boys sempre nos proporcionou. O fato de a obra ser uma trilha para um filme imaginado faz com que cada música se conecte, algo extremamente preciso e interessante, mas que, no entanto, nos traz um outro problema: as faixas não se separam da obra como um todo, sendo difícil de serem aproveitadas plenamente de forma “avulsa”.

Tal fato pode ser visto na ótima balada Enemies All Around, em que o clima cinematográfico transparece até demais, deixando-a estagnada ao álbum devido a sua orquestração característica e de difícil dissociação. Mas não podemos nos esquecer que estes próprios arranjos é que deixam a obra interessantíssima pois não se resumem somente a cordas sendo tocadas ao fundo. Temos aqui também excelentes grooves à la The Roots como em An Unexpected Call e Rise of the Black Suits, ambas conduzidas no piano/sintetizador. A bateria verdadeira, não pré-gravada, traz um toque orgânico sempre muito bem vindo ao Hip Hop.

Os versos de Ghostface Killah tem momentos interessantes mas outros nem tanto, recorrendo mais aos seus antigos companheiros de Wu-Tang para conseguir alcançar um bom momento. O problema em si é Killah repete o seu estilo em alguns momentos, fazendo o que sabe de melhor – contar histórias e transparecer agressividade – mas que, no entanto, são sempre repetidos ao longo de todo o disco, sem maiores sustos ou surpresas. A linha é consistente e boa, mas reproduzida com muita intensidade, o que mais uma vez traz um aspecto de uma obra como um todo, sem dissociação.

Em seu décimo álbum de estúdio, Ghostface Killah entrega uma verdadeira obra, tão verossímil e estruturada que encontra dificuldade em transparecer algo maior que a própria ideia criada. No entanto, espere por uma ótima experiência a ser seguida do começo ao fim, mas sem grandes espaços para voltas pontuais em determinados momentos. A sensação passada é que temos um grande álbum de Hip-Hop mas rígido em sua estrutura e que, de forma paradoxal, acaba trazendo uma troca clara entre inovação conceitual e rigidez sonora. Nada que não te obrigue, como fã do estilo, a escutar e se deliciar com a história de Tony Starks.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.