Resenhas

Gilberto Gil – Expresso 2222

Misturando o regional e o estrangeiro, disco marca o retorno de Gil do exílio em Londres e é pedra fundamental para o que viria na sequência da década de 1970

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Ano: 1972
Selo: Philips Records
# Faixas: 9
Estilos: Tropicália, MPB
Duração: 34'
Produção: Roberto Menescal, Guilherme Araújo

1972 foi um ano importante para a música brasileira. Além do lançamento de Expresso 2222, Caetano Veloso vinha com seu clássico Transa, Milton Nascimento e Lô Borges criavam o Clube da Esquina e os Novos Baianos inventavam Acabou Chorare. Acabada a efervescência cultural dos anos 1960, a década seguinte foi um período de mudanças com a intensificação do regime militar e de seus mecanismos de censura. E a música da época refletia o clima de tensão vivido no país e oferecia aos artistas uma forma de responder à repressão política por meio da celebração da tradição popular brasileira.

Expresso 2222 é um dos frutos mais emblemáticos dessa leva não somente por recuperar tão bem a música nordestina que formou Gilberto Gil nos anos 50 e 60, mas também por adicionar a ela ideias vindas de seu tempo de exílio na Inglaterra. O álbum é tanto um retorno triunfal ao solo em que o compositor foi criado quanto uma abertura ao novo e ao futuro. Como todo clássico do baiano, o disco traz em si um microcosmo. É um universo de temáticas e sons tão denso que merece sozinho uma análise mais detalhada.

Além-mar, em Londres, Gil passou três anos sob influência do Rock e do Pop britânico e americano e entrou em contato mais intenso com nomes como Beatles, Jimi Hendrix, Led Zeppelin e Bob Marley. As canções lançadas durante o período eram mais experimentais, mas foi em 2222 que o compositor decidiu levar as escolas norte-americana e europeia para dentro das tradições brasileiras. Retornar ao Brasil significava retornar ao Nordeste, aos clássicos do Forró e do Baião e aos temas do universo sertanejo de Pernambuco e do interior da Bahia. Em 2222, Gil recorre a Luiz Gonzaga, Dominguinhos, ao paraibano Jackson do Pandeiro e a outros ícones que contribuem para a festa.

A faixa de abertura, “Pipoca Moderna”, foi composta por Caetano Veloso e Sebastião Biano e executada com apoio da percussão da Banda de Pífanos de Caruaru, tradicional conjunto alagoano. Gil também traz aos ouvintes versões de “O Canto da Ema”, de Ayres Viana, Alventino Cavalcante e João do Vale, “Chiclete com Banana”, de Gordurinha e Almira Castilho, e “Sai do Sereno”, de Onildo Almeida, clássicos pernambucanos.

O que torna o álbum grandioso não é a simples homenagem à tradição e ao que perdeu enquanto esteve fora, mas uma releitura partindo de ideias que marcavam o cenário musical estrangeiro. Da Europa, Gil trouxe a predominância do Rock, da guitarra elétrica, do piano e da experimentação musical. Esta nova roupagem se misturou de forma magistral aos instrumentos da música nordestina: o triângulo, o agogô, a zabumba e o pífano. Uma bela fusão entre o tradicional e o novo. O ímpeto modernista de Gil ajudava a equilibrar forças na tensão entre a cultura brasileira e as influências que começavam a chegar cada vez mais e de lugares muito longes daqui.

Outro tema marcante pode ser observado nos anseios da faixa-título. “Expresso 2222” fala de um trem que leva “pra depois do ano 2000”, mostrando um Gil que encarnava o sentimento das vanguardas estrangeiras, celebrando o uso de alucinógenos, o abandono de moralismos e as esotéricas discussões sobre o advento de uma nova sociedade, mais igualitária. Ao comentar a faixa no seu site, ele admite que “a ideia de viagem expressa na letra está ligada às drogas e aos modificadores e expansores de consciência”.

Ao lado das metáforas tecnológicas, o que se ouve é um baião organizado pela cadência impecável do violão de Gil. Ponto central de todo o álbum, é uma evocação das locomotivas que partiam do interior da Bahia em direção a Salvador durante sua infância. Um futuro cantado nos ritmos e lugares da memória.

Ele completa a paisagem nas últimas faixas do álbum. “O Sonho Acabou” é um balanço crítico da época de psicodelia e experimentação e “Oriente”, um reencontro radical consigo mesmo que contrasta com a felicidade por chegar em casa de “Back In Bahia”. Gil brinca com a ideia de que não há reencontro verdadeiro com seu país até que você entenda quem se tornou fora dele, mas também sabe que é na memória que você encontra as ferramentas para entender e falar daquilo que é novo. A lembrança constrói o futuro.

Expresso 2222 ilustra com precisão o Brasil do início dos anos 1970, preservando um aspecto profundamente regional enquanto se abre generosamente às tendências da música internacional. Sua leitura a partir de um olhar interdisciplinar e eclético é a pedra fundamental dos sucessores Refavela (1975), Refazenda (1977) e Realce (1979). Na trilogia Re, Gil refinaria seu método para dialogar, mais direta e especificamente, com o Nordeste, a África e a Disco Music. Paramos por aqui, porque o 2222 já é mais do que matéria.

(Expresso 2222 em uma faixa: “Expresso 2222”)

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ARTISTA: Gilberto Gil

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