Resenhas

Gilberto Gil – Gilberto Gil

Com arranjos de Rogério Duprat, terceiro álbum de estúdio, conhecido como “Cérebro Eletrônico”, registra a transgressão estética de Gil (antes do exílio e depois da explosão tropicalista) e aponta para o futuro

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Ano: 1968
Selo: Philips Records
# Faixas: 9
Estilos: Tropicalismo, MPB, Rock
Duração: 40'
Produção: Rogério Duprat e Manoel Barenden

Há muitos motivos para fazer um disco às pressas. Em 1969, Gilberto Gil teve de produzir seu terceiro álbum em quatro meses por um dos mais sórdidos: ele teria de deixar o país naquele ano. Depois de dois meses preso no Rio de Janeiro pela ditadura militar, o músico recebeu um ultimato do regime, que vivia seus piores dias, e ficar por aqui poderia colocá-lo na triste estatística dos desaparecidos políticos. Antes de ir para Londres com Caetano Veloso, o baiano deixou um registro desses dias, em que reflete, sobretudo, acerca do futuro e da modernidade.

A suingada “Cérebro Eletrônico”, que abre o álbum, concentra os pensamentos do momento. Enquanto se falava tanto de morte por aqui, no mundo, a corrida espacial da Guerra Fria inspirava avanços tecnológicos e ficções científicas, a vida por meio de “botões de ferro e olhos de vidro”. Gil viaja, mas não se ilude. “Cérebro eletrônico nenhum me dá socorro em meu caminho inevitável para a morte, porque sou vivo e eu sei”, canta.

O futuro como incógnita, com suas mil possibilidades, dá o tom do álbum, olhando sempre ao redor. “Volks-Volkswagen Blues”, um flerte com o blues norte-americano e uma brincadeira com o carro alemão, é um mote ao passado, sua família, quem ele vai deixar para trás. Gil fala em futuros distópicos, mas não tira os pés da realidade, o motivo da saída está sempre presente, de forma mais ou menos sutil. A caneta irônica de Caetano Veloso em “A Voz do Vivo”, refletindo sobre a prisão e em como enfrentar a situação, clama “Eu estou muito tranquilo”.

O single “Aquele Abraço”, um de seus maiores sucessos até hoje, é um hit carnavalesco que esconde, por trás de um jargão humorístico da época, sua despedida. É a reflexão – muito presente em sua carreira – sobre como um país tão bonito e tão cheio de preciosidades (ele deixou a cadeia em uma Quarta-feira de Cinzas) pode produzir também experiências tão horríveis. “Ao mesmo tempo, tudo é feio e tudo é belo o tempo todo”, explicou o autor, décadas depois, ao falar da música.

Seu Nordeste também está ali, na versão de “17 Légua e Meia”, de Humberto Teixeira e Carlos Barroso, gravada por Luiz Gonzaga. Sua versão, no entanto, nada lembra o xaxado de Gonzagão. É, de novo, um blues. O sertão nordestino revisto, homenageado e transformado.

O disco de 1969 é a transição de Gil do Tropicalismo à criação de um estilo próprio. O movimento, encabeçado por ele e por Caetano nos dois anos anteriores, dá seus últimos respiros por meio dos arranjos de Rogério Duprat e a guitarra de Lanny Gordin. É o tom que fecha o álbum. “2001”, de Tom Zé e Rita Lee, é gravada como um Rock, guitarra e no baixo de guias, sem a brincadeira com música caipira presente na versão dos Mutantes do mesmo ano.

“Futurível”, centrada em violão e metais, como viria a ser o Gil dos discos seguintes, traduz as reflexões do músico sobre as possibilidades da nova década – para o mundo, para o país, para si – fundada em transcedência metafísica e ficção científica.  “Você foi chamado, vai ser transmutado em energia; Seu segundo estágio de humanóide hoje se inicia; Fique calmo, vamos começar a transmissão”, ele diz, na mesma pegada do Major Tom, de David Bowie, do mesmo ano – o ano em que o homem foi para a Lua.

Por fim, a faixa que fecha o disco original (“Objeto Semi-identificado”) não é bem uma música, mas uma conversa entre ele, Duprat e Rogério Duarte. Sobre o que falam? Sobre a eternidade, sobre números, sobre o infinito. Sobre tudo, enfim. Há forma melhor de fechar o álbum? A versão especial em CD mostra que sim. Além de faixas bônus com músicas suas originalmente gravadas por Gal Costa (“Com Medo, Com Pedro” e “Cultura e Civilização”), o lançamento trouxe ainda o samba “Queremos Guerra”, de Jorge Ben, gravado com o próprio.

Se a modernidade, o futuro, são os principais temas do álbum, ele pode ser visto, por que não, como um adianto do que o próprio Gil faria nos anos seguintes. As guitarras, a psicodelia das letras, flerte com o blues, a música dançante – tudo circundado por uma das melhores mãos direitas que o país já ouviu. A capa de Gilberto Gil, sem nome, que traz uma folha com desenhos e um poema de Rogério Duarte, sintetiza o disco ao confrontar uma simplicidade aparente a sofisticação e complexidade semântica tão peculiares. O álbum de 1969 registra a transgressão estética de Gil e serve de bússola para o que iria consolidá-lo como um dos maiores artistas da música nacional.

(Gilberto Gil em uma faixa: “Cérebro Eletrônico”)

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ARTISTA: Gilberto Gil