Resenhas

Gilberto Gil – Refavela

Com influências que vão do encontro no FESTAC 77 à ebulição do Movimento Black Rio, passando pelos blocos carnavalescos de Salvador, Gil estabeleceu diálogo – político e musical – entre as raízes africanas e a realidade brasileira

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Ano: 1977
Selo: Warner Music
# Faixas: 10
Estilos: MPB, Afrobeat, Funk, Reggae
Duração: 37'
Produção: Roberto Sant'Ana

Foram muitos os encontros que redundaram em Refavela (1977). O encontro com a Nigéria, em Lagos, no 2º Festival Mundial de Arte e Cultura Negra; o encontro com Fela Kuti (e Stevie Wonder), a Jújú Music, o Afrobeat, o Highlife e a percussão Iorubá; o encontro com os blocos carnavalescos de Salvador, o Ilê Ayê e o Filhos de Gandhy; e o encontro com o Funk e o Soul no caldeirão do Movimento Black Rio. Mas, em resumo, o encontro definitivo que guiou toda produção e composição deste clássico, segundo capítulo da Trilogia Re e “irmão mais novo” de Refazenda (1975), foi o intenso e profícuo encontro de Gilberto Gil com sua afrodescendência.

A ida de Gil, como um dos representantes brasileiros, ao FESTAC 77 – o qual não ocorria havia 30 anos, desde a primeira edição em Dakar – representou a imersão nas raízes de sua negritude, além de propiciar a conexão mais profunda até então com a religiosidade afro. Ir até a Nigéria, se jogar em influências das mais variadas, conhecer artistas e vozes que repercutem as diásporas africanas em todos os continentes e conceber os tipos de emergências musicais que amarravam uma articulação mundial da(s) música(s) negra(s) surtiu um efeito bem típico (e genial) de Gil, um tropicalista: colocar tudo isso em diálogo com a – e sob a perspectiva da – realidade brasileira.

O próprio disse, em postagem recente no Twitter: “Em 1977, eu fui participar do Festac, festival de arte e cultura negra, em Lagos, na Nigéria, onde reencontrei uma paisagem sub-urbana do tipo dos conjuntos habitacionais surgidos no Brasil a partir dos anos 50.Carlos Lacerda fez em Salvador a Vila Kennedy, tirando muitas pessoas das favelas e colocando-as em locais que, em tese, deveriam recuperar uma dignidade de habitação, mas que, por várias razões, acabaram se transformando em novas favelas.” Assim, Refavela nasce, em contraposição a Refazenda, de uma motivação urbana e da ideia de ressignificar o espaço da cidade no qual a população negra se inseria nos aglomerados tropicais. Soma-se a isso, também, a influência da vivência carioca – sintetizada pelo que vinha fazendo o Movimento Black Rio – expressa a partir da dualidade entre morro e asfalto.

A articulação manifesta entre as realidades brasileiras e nigerianas, cariocas e soteropolitanas e sul-americanas e africanas, propiciou um repertório que reafirma um compromisso musical, político e espiritual. Abrindo o disco, a faixa-título, com trechos como “a refavela revela o salto que o preto pobre tenta dar, quando se arranca do seu barraco prum bloco do BNH” e “a refavela revela o passo com que caminha a geração do black jovem do Black Rio da nova dança no salão”, monta o pano de fundo que percorre o álbum e tem seu ápice no refrão contagiante. Gil evoca a ancestralidade – e a tempera com a pluralidade de referências – com “alaiá kiriê / kiriê, iaiá”, expressão vinda do iorubá (“iaiá”) e do grego (“kiriê”), que, em tradução livre para o português, significa “sinhá, senhor – senhor, sinhá”, segundo consta no artigo O mundo negro que viemo mostrar pra você: as imagens discursivas do negro nas canções de Gilberto Gil (2017), de Morgana Ferreira de Lima.

Em “Ilê Ayê”, empréstimo precioso de Paulinho Camafeu, um dos criadores da Axé Music, Gil soa enérgico, afiado e carismático em meio a um instrumental que mescla violões incansáveis, um baixo borbulhante, sopros certeiros e densos – na conta de Hamilton Pereira Cruz (trompete) e Zé Bodega (saxofone). Um dos grooves mais magistrais de toda a obra de Gil – com baixo impressionante de Rubão Sabino – “Babá Alapalá” novamente trata da ancestralidade. Ao mesmo tempo em que questiona onde estão avôs, bisavôs e tataravôs, ele celebra as raízes em referência ao Culto aos Egunguns – Gil já disse que a composição foi inspirada em sua primeira ida a um terreiro de Candomblé, em Salvador. “Samba do Avião”, standard da Bossa Nova composto por Tom Jobim, é desconstruída em uma espécie de Funk lento, com guitarras que bebem do Afrobeat, criando uma versão revigorada e algo irônica. Ainda há espaço para a singeleza de “Aqui e Agora”, sem dúvida, uma das poesias mais belas já escritas por Gil.

Combinando influências do Reggae a uma levada benjoriana, a magnífica “Sandra” foi inspirada na passagem de Gil pelo hospício por conta de uma pequeníssima quantidade de maconha, em 1976. A polícia de Florianópolis, no alto da ignorância da repressão da ditadura militar, prendeu o baiano em um hotel da capital catarinense – após um show dos Doces Bárbaros – e, na sequência, o direcionou a uma clínica psiquiátrica. A canção é uma saudação a todas as mulheres com quem Gil conviveu durante aquele mês no hospício, além de, ao final, homenagear Sandra, sua esposa na época.

“Um novo tempo sempre se inaugura a cada instante que você viver”, canta Gil na deliciosa “Nova Era”. Aproveitando o gancho: Refavela representou um novo momento para Gilberto Gil, como músico, artista, ser político e, sobretudo, negro. E ele marcou essa inauguração com sons e poesias efervescentes, colhendo referências e inspirações da Nigéria ao Brasil, de Lagos a Salvador, e as realocando munido de um espírito criativo único. Ele observou, com a atenção e a riqueza de conclusões características, tantos “aquis e agoras” diferentes que foi capaz de criar uma obra atemporal – e que estabelece elos entre realidades distantes, apontando uma essência cheia de paralelismos, do mais angustiante ao mais deslumbrante.

(Refavela em uma faixa: “Refavela”)

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ARTISTA: Gilberto Gil