Resenhas

Gilberto Gil – Refazenda

Com toque fundamental de Dominguinhos, capítulo inaugural da “Trilogia Re” se volta às origens nordestinas de maneira renovada e remaneja, suavemente, a proposta tropicalista

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Ano: 1975
Selo: Philips Records
Estilos: Tropicália, Pop, MPB
Duração: 11
Produção: Marco Mazzola

Após Expresso 2222 (1972), que marca a volta do exílio, Gilberto Gil ainda chegou a gravar Umeboshi, disco ao vivo deixado de molho e que seria lançado só em 1999 (como Cidade Do Salvador). Mas é Refazenda, de 1975, que parece representar uma espécie de início do momento efetivamente “pós-tropicália” na discografia de Gil – de volta ao Brasil. As ideias e propostas do movimento já eram colhidas mais como influências do que como diretrizes rígidas e a ideia de Refazenda foi retornar às origens nordestinas, celebrar Luiz Gonzaga e outros ídolos, revisitar, reentrar, engatar a ré em direção ao universo do homem sertanejo. Mas, também, a partir de novas referências, renovar a ideia de uma música nordestina. Para isso, a participação de Dominguinhos foi essencial – um discípulo de Gonzagão e que, ao mesmo tempo, era antenado a novas perspectivas e possibilidades. Gravado em oito (!) canais, com orquestrações impecáveis e os grooves (e a poesia) que só Gilberto Gil é capaz de entregar, Refazenda é daqueles discos cujas intenções a priori se concretizam com perfeição.

O repertório abre com “Ela”, trazendo um violão de notas tortas e levada cheia de suingue – bem aos moldes de Jorge Ben Jor, possível referência reforçada pelo fato do clássico Gil & Jorge também ter saído em 1975. A voz de Gil, com direito a breves falsetes, se harmoniza a coros e sopros precisos, além do baixo grifado de Moacyr Albuquerque mantendo uma aura dançante. Um cartão de visita que pode ser sobre amor ou, como de costume quando falamos de Gil, sobre tantas outras coisas.

Entre as grandes canções do disco, “Tenho Sede”, composta por Anastácia e Dominguinhos – e incluída pelo acordeonista em seu disco lançado no ano seguinte –, é um exemplo refinadíssimo da união entre a raízes nordestinas e o Pop que marcava os anos 1970, influência do período em terras britânicas. Dominguinhos, seu acordeom e um triângulo harmonizam e encorpam a produção, guiada por uma bateria econômica, quase inteiramente 4X4, enquanto Gil canta o pranto, belo e triste, sobre um amor, imprescindível ao corpo como a água.

As desconstruções e provocações de Gil são expressas lírica e musicalmente. “Pai e Mãe” é uma delicada e profunda digressão sobre a liberdade de afetos, um samba lento, tocante no qual ele manifesta todos os amores da vida, entre homens e mulheres, como extensões de amores familiares. “Eu passei muito tempo aprendendo a beijar outros homens como beijo o meu pai”. 1975.

Influenciada por On The Corner (1972) – disco do Miles Davis, por sua vez, influenciado por James Brown e Sly & The Family Stone –, a sincopada, imprevisível e funkeada “Essa É Pra Tocar No Rádio”, como o título sugere, zomba dos gargalos do mercado musical, da ideia de arte feita com metas delimitadas pela capacidade de penetração e de sucesso nas rádios. A faixa havia sido incluída, também, em A Cidade do Salvador. Curiosamente, Refazenda, de certa maneira, posicionou Gil como artista de vendas de maneira mais significativa. “Retiros Espirituais”, com toques de balada Rock, mas logo desmantelada por sopros de ar esotérico é daquelas letras típicas de Gil, que apenas tangenciam o explicável, o mistério de todas as coisas e, a partir desses breves contatos, inúmeras portas são abertas. A musicalidade das mais primorosas vem de brinde.

A faixa-título, uma das memoráveis do repertório, é um universo à parte e que, ao mesmo tempo, sintetiza todo o álbum a qual dá nome. Uma toada imersa em possibilidades de estúdio que encorpam seu caráter psicodélico, “Refazenda” entrega muito do que é Gilberto Gil (em especial o de 1975): a inventividade na mão direita, as cordas soltas como recurso fundamental, as brincadeiras e justaposições de palavras e sentidos – a ideia de uma (re)aproximação da natureza, de um retorno ao ambiente rural, interiorano, sertanejo. Houve até quem achasse que o tal “ato”, que ele diz acatar na letra, se referia ao AI-5, baixado em 1968, mas Gil já disse que isso nem se passou pela sua cabeça. Tratava-se, sim, de uma reafirmação do vínculo com a simplicidade do interior, a aceitação desse chamado da natureza, de acatar seu ritmo e de retornar às origens, proposta primordial do disco.

O homem sertanejo também ecoa na política “Jeca Total”, de melodia soluçada e hipnótica, e principalmente na exuberante “Lamento Sertanejo”, uma das grandes canções de toda obra de Gil.  No ano anterior, Dominguinhos enviou, em uma fita cassete, uma harmonia de andamento típico do forró para Gil, que a desacelerou e colocou a letra. Basta ouvir, não há muito o que dizer: “Lamento Sertanejo” é realmente uma das criações mais lindas da nossa música. Simples, poética, poderosa, uma trova cujo impacto narrativo é algo como Vidas Secas.

Refazenda veio como um lembrete de que a Tropicália é (foi e será), sobretudo, um movimento nordestino e, acompanhado especialmente de Dominguinhos, Gil realiza uma revisitação àquela proposta. Mas de maneira renovada e, digamos, mais relaxada. O capítulo inaugural da Trilogia Re celebra as origens e as remaneja à luz de novas tendências, mas parece haver um descompromisso intencional com o tropicalismo enquanto “manifesto” ou lugar fechado, ainda que haja a entrada e saída constante de linguagens. O resultado é poderoso discursiva e poeticamente, além de musicalmente arrebatador. Um clássico.

(Refazenda em uma faixa: “Lamento Sertanejo”)

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ARTISTA: Gilberto Gil