Resenhas

Giovani Cidreira – Mix$take

Mixtape de compositor baiano traz uma desconstrução de sua sonoridade e personalidade

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Ano: 2019
Selo: Risco
# Faixas: 7
Duração: 23'
Nota: 3.5
Produção: Giovani Cidreira e Benke Ferraz

É quase um destino inexorável do artista se desconstruir à medida que sua obra segue seu caminho. As potencialidades de expressar seus sentimentos, angústias e particularidade por meio de sua arte, por vezes o fazem rever seus próprios conceitos e, talvez esteja aí, uma das características mais fascinantes da arte. Para o compositor baiano Giovani Cidreira isto não é novidade.

Veterano da música há muito, começou este processo de quase auto-análise na banda Velotroz, mas foi de fato em 2014, com seu aclamado Japanese Food que foi possível entender  a complexidade íntima com a qual Giovani se pôs a enfrentar. Hoje, ele volta a encarar este desafio, porém de um lugar diferente, mais maduro e que traz uma desconstrução ainda mais intensa, fato que é refletido claramente em sua sonoridade.

Mix$take pode ser encarado com uma nova direção na sonoridade de Giovani, mas também um ponto marcante no processo de investigação de conteúdos do compositor. Com produção assinada juntamente com Benke Ferraz (Boogarins), temos aqui uma exploração interessante de timbres eletrônicos, audios de WhatsApp, batidas descompassadas e barulhos que, apesar de deixar claro o lado experimental do baiano, não menospreza a estrutura típica da canção que lhe é tão familiar.

Dessa forma, Giovani se desconstrói mas não nega sua essência de um compositor afixionado pela canção. O bacana do disco também é perceber que a estética visual escolhida (com clipes produzidos pelo artista visual Rollinos, repleta de interferências de vídeos e glitches) não é apenas pelo hype, mas uma representação imagética deste processo de investigação e composição: evidenciando falhas, reconhecendo formas no abstrato e se expressando por meio daquilo que às vezes desprezamos com defeito.

Oceano Franco, pode até ter uma alusão a uma sonoridade Frank Ocean do disco Blonde, mas ela se transforma em algo maior que isso: uma forma vagarosa de Hip Hop pintado pela soturnidade de timbres fantasmagóricos de piano. Pode Me Odiar traz uma melodia sedutora em meio a um campo tenebroso, com vocais duplos e pinceladas tensas de sintetizadores. Ngm +vai Tevertrist é dançante, quase como uma fita cassete dos anos 80, nostálgica e corroída pela poeira do tempo. Casa Vulva flerta com o Trap sem abrir mão da atmosfera construída até agora, nos direcionando para humores aparentemente contraditórios.

Não resta dúvida do talento de Giovani. Não apenas de ser hábil na produção de um registro que é tão misterioso quanto prazeroso, mas de conseguir coordenar tantos sentimentos, timbres e sensações em prol daquilo que ele deseja nos contar. Um processo de desconstrução que nos invade e deixa à deriva pelas diferentes partes de Giovani Cidreira.

(Mix$take em uma faixa: Ngm +vai Tevertrist)

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BOM PARA QUEM OUVE: Cuco, Frank Ocean

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.