Resenhas

girl in red – if i could make it go quiet

Disco de estreia da sensação Indie aborda questões de saúde mental de forma extremamente acolhedora e realista

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Ano: 2021
Selo: AWAL/world in red
# Faixas: 12
Estilos: Indie Rock, Bedroom Pop
Duração: 33'
Produção: girl in red, Matias Tellez e FINNEAS

Definir o gênero Indie tem se mostrado uma tarefa cada vez mais árdua. O termo surge, a priori, da tentativa de definir a explosão de gravações independentes ocorrida na década de 1980. Entretanto, pouco a pouco, o que era para ser uma forma de categorização sobre os meios de produção e prensagem, começou a se transformar em sonoridades particulares e distintas. Colocava-se em uma mesma caixa Pixies, Arctic Monkeys, Fleet Foxes e Beach House. Além disso, um estereótipo fortíssimo começa a emergir a partir da década de 2000, configurando um pedantismo musical a uma comunidade fãs que se achavam melhores por conhecer uma demo obscura de tal banda desconhecida da década passada.

Seja como for, o Indie se transformou muito nos últimos anos, passando de uma comunidade alternativa mais reservada até se tornar uma tendência mundial disseminada por redes sociais. Particularmente no TikTok, uma nova geração de fãs parece entrar em contato com um Indie muito diferente daquele consolidado em outras décadas. Há uma sensação de acolhimento muito forte, totalmente distinta da sensação de exclusividade que o gênero musical tinha na década de 1990, por exemplo. E, sem sombra de dúvida, parte desse acolhimento vem representado por um dos maiores sucessos dos últimos meses: a norueguesa Marie Ulven Ringheim, mais conhecida pelo seu nome artístico girl in red.

Com apenas 22 anos, Marie alcançou um sucesso viral estrondoso por meio do TikTok. Seus primeiros esboços de música eram acrescentados em seus vídeos na rede social e, pouco a pouco, começaram a ganhar notoriedade na comunidade. Alguns destes rascunhos, mais tarde, viraram singles de proporções mundiais – todos eles produzidos no conforto de seu lar, na pequena cidadezinha de Horten, Noruega. Estas composições traziam letras repletas de angústias da juventude, porém feitas de uma maneira tão universal e simples, que qualquer um poderia se envolver com seu lirismo. O apelo Pop, misturado a melodias típicas do Indie do começo dos anos 2010, tornou sua sonoridade extremamente popular. Assim, vinda de uma explosiva ascensão à fama, Marie coloca no mundo seu disco de estreia, if i could make it go quiet, um trabalho que explora um sentimento de acolhimento, tão desejado nos dias de hoje.

A personalidade de Marie é um dos grandes destaques do disco. A pouca idade, misturada com sua agitação natural, perceptível em entrevistas de vídeo, dá a impressão de que, ao nos revelar seu mundo particular, ela não tem nada a esconder. É como se estivéssemos literalmente acompanhando o fluxo de seus pensamentos em tempo real, observando cada momento de angústia, dor, amor e felicidade. Em alguns momentos, pode parecer que é muita coisa para digerir em canções Pop que duram pouco mais de três minutos. Mas o jogo feito entre todos estes pensamentos e a construção instrumental acessível nos traz um clima menos intenso durante a audição. Lidamos a todo instante com emoções muito intensas, mas a forma como Marie nos narra tudo isso nos faz querer compreendê-la ainda mais.

Entretanto, Marie também é frágil, afinal este disco lida com questões de saúde mental seríssimas. Diagnosticada com TOC, a cantora faz de seu trabalho uma tentativa de dar forma às angústias que nem sempre são tão facilmente assimiladas por ela. Há momentos, como no brilhante single “Serotonin”, em que Marie nos traz todo o tipo de pensamento destrutivo e proveniente de crises de pânico, as quais impregnam uma pessoa com uma sensação de morte iminente. Mas, ao mesmo tempo que traz essas temáticas, também é um trabalho sobre se recuperar. Em um vídeo especial do Spotify, a artista menciona que fazer piadas e rir é um dos melhores jeitos que encontrou para não achar que estava morrendo todo o dia. E é esta piada que escutamos em if i could make it go quiet: um trabalho repleto de ironias, choros, desabafos e alegrias.

Não à toa, o single mencionado anteriormente é o responsável por abrir o disco, evoluindo de uma sutil melodia até o final épico repleto de percussão de orquestra. “Body and Mind” desacelera o passo, com uma aura mais dark, porém com um refrão perfeito para coreografias do TikTok. “You Stupid Bitch” expressa a urgência da paixão na juventude, quando a única coisa que queremos fazer é gritar (e praticamente xingar) a pessoa pela qual estamos apaixonados. Já “Apartment 402” se volta para texturas mais melancólicas, ainda que trazendo um compasso constante de ritmo dançante. Por fim, “it would feel like this” encerra o trabalho com um interlúdio instrumental melancólico, fazendo a função de “música lenta e introspectiva” do álbum e nos deixando emocionados até o último instante.

girl in red encarna a uma faceta muito mais acolhedora do Indie. Não há mais aquela cobrança de vestir uma jaqueta de couro descolada ou de usar uma camiseta de banda que ninguém conhece. Marie nos mostra de fato como ela é, seja cantando sobre aquilo que deseja, compartilhando suas fraquezas e sensibilidades ou apenas fazendo a música que lhe parece certa. Talvez este seja um dos motivos pelo qual a artista conseguiu tanta projeção internacional: ela dá ao ouvinte uma sensação abraço. Um abraço terno e sincero.

(if i could make it go quiet em uma faixa: “Serotonin”)

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ARTISTA: girl in red

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.