Resenhas

Girlpool – What Chaos Is Imaginary

Terceiro disco de grupo Indie reflete vivências em experiências sensíveis e, ao mesmo tempo, fortes a partir de experiências de seus integrantes

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Ano: 2019
Selo: ANTI-
# Faixas: 14
Estilos: Indie, Indie Rock
Duração: 45:33
Nota: 4
Produção: Girlpool e David Tolomei

Quando tentamos nos lembrar em nossa cabeça de certos fatos objetivos, raramente o fazemos de uma forma precisa e direta, sempre prescrevendo memórias subjetivas que por vezes mudam a percepção da coisa em si. Agora, quando o objeto em questão é um episódio emotivo, tudo fica mais complexo e desvendar este labirinto pode parecer uma tarefa impossível.

Tendo isso em mente, o célebre grupo Indie Girlpool trouxe em sua curta discografia ensaios desta exploração, entoados de canções emotivas e extremamente sinceras em sua abordagem, principalmente no trabalho de 2017, Powerplant. Entretanto, muito mudou desde o ano passado, não só externamente como dentro dos integrantes do grupo, uma mudança que talvez seja tão monumental quanto todas as questões e cujo reflexo faz seu novo disco brilhar dentre tantos outros do Indie.

What Chaos Is Imaginary acompanha mudanças importantes para a banda. Enquanto Harmony Tividad combateu ferrenhamente questões envolvendo saúde mental, o vocalista Cleo Tucker assumiu sua identidade não-binária enquanto homem-trans. Assim, não desviando da típica investigação emocional, o grupo tem um dilúvio de experiências para processar e, não à toa, seu terceiro disco tem a palavra “chaos”. Apesar da conotação negativa que o termo possa ter, ele vem aplicado para simbolizar a magnitude da complexidade em volta dos episódios, e a forma como a banda traduz isto ao ouvinte é o ponto alto deste trabalho.

O Indie Rock pode ser a principal linha de condução, mas o conjunto da obra transborda estes estereótipos. Esta talvez seja a intenção do grupo. Não de confundir o ouvinte, mas de compor ao nosso redor um ambiente diverso que pode até conter certo elemento de comodidade, mas em nenhum momento pretende encaixar sua vivência em uma caixa. Girlpool tenta expressar a unicidade de suas experiências, tanto dos processos envoltos da questão Trans, como pela batalha intensa da saúde mental. Isto fica refletido da sonoridade instigante do disco, que pede de nós uma escuta ativa e atenta aos mínimos detalhes, pois tudo que compõe este cenário parece querer nos dizer algo.

Com uma pesada e distorcida guitarra, o disco abre esta arqueologia mental com Lucy’s, um arrastada canção que já prenuncia o terreno multifacetado. Hire imprime com sua fragilidade o lado singer-songwriter que o Indie tanto primou, não negando uma influência de Pixies. All Blacked Out, por sua vez, pega este lado sincero da canção e adapta em recortes tensos de acordes estranhos, em uma tentativa de enfiar algo majestático em uma caixa (tal como pessoas não-binárias podem se sentir). Minute In Your Mind reconhece a imensidão das vivências ao propor uma espécie de Dream Pop amplo e que faz da sobreposição de reverbs uma ferramenta para ilustrar as coisas de forma mais clara para o ouvinte. Swamp And Bay traz um Folk estranhão à tona, em um meio termo frustrante de mansuetude e tensão. Por fim, Roses encerra o disco em uma lentidão que beira a Drone Music, talvez reafirmando que apesar de saudável, processar nossas vivências é intenso.

Girlpool não é mais uma banda Indie nostálgica que reproduz o hiper reproduzido. Com este disco, fica ainda mais claro sua maturidade e coragem de repassar experiências marcantes para o público que, por pouco mais de quarenta minutos, se torna seu confidente e melhor amigo. Uma experiência cuja sinceridade nos deixa tocado e em êxtase.

(What Chaos Is Imaginary em uma faixa: All Blacked Out)

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MARCADORES: Indie, Indie Rock

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.