Glue Trip – Sea At Night

Texturas mais escuras e de qualidade envolvem o novo disco do grupo pessoense

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Ano: 2018
Selo: Independente
# Faixas: 9
Estilos: Psicodelia, Dream Pop
Duração: 41:26
Nota: 3.5
Produção: Glue Trip

Aos poucos, Glue Trip se consolidou como um dos nomes mais relevantes da Psicodelia brasileira, criando um universo sonoro que é tão diverso quanto único. Desde que apareceu em nossa seção Ouça, com seus membros escondidos em máscaras animalescas, sua proposta se mostrou definitivamente clara: explorar as potencialidades da lisergia aliada a uma curiosidade típica do brasileiro de quebrar as paredes entre gêneros. Assim, Psicodelia era apenas uma burocracia para tentar definir a riqueza que conseguiram transmitir em impressionantes dois registros: o raíz Just Trippin’ de 2013 e o etéreo disco autointitulado de 2015. Três anos depois, o grupo pessoense volta os curiosos e ávidos olhos para um terreno no qual a visão não é nossa escudeira e nossos outros sentidos parecem ser mais amplificados.

Sea At Night não poderia ser mais direto na descrição do mundo em que se insere. Diferente dos outros registros, o mistério e o soturno rondam os sintetizadores e arranjos e a partir disso, somos direcionados a mergulhar em um território que a primeira escutada pode parecer hostil, porém se revela encantador e provocativo. É, de fato, como mergulho no mar de noite, onde nenhuma luz nos guia um caminho certeiro, nos restando apenas nos guiar pelas sensações além da visão. As vozes longínquas se unem a batidas constantes e sintetizadores hipnóticos criando uma sensação de que podemos apenas tatear este domínio e interpretá-lo como podemos. É certamente uma mudança em relação a outros momentos do grupo, mas Glue Trip mantém a seriedade e audácia de nos entregar um disco diferente dos lugares comuns que tanto ouvimos na Psicodelia.

Waves já anuncia que a música Eletrônica será um acompanhante fiel do grupo até o final do trabalho, sintetizando uma moleza em nós como se simulasse a força das ondas e apenas nos sugerisse ficar à deriva. Between Jupiter and Mars abranda o curso das águas com as melodias sussurradas e o curioso uso de vocoder para dar novas texturas à composição. Friend Zone Forever, com sua introdução quase mântrica, nos convida para dançar na batida de um Indie Pop envolvente mas que conserva o ar psicodélico na grandiosidade dos timbres. Closing Cycles é quase como um respiro das águas escuras, nos permitindo pegar um novo fôlego no ar igualmente escuro, flertando com Ambient Music. E.W.W.T relembra a famosa Elbow Pain com seu violão suave e o reverb constante que dá leveza ao conjunto da música.

É um disco diferente, porém um que está certo do caminho que trilha (mesmo que seja neste mar noturno). Com ele, Glue Trip se mantém ainda relevante na viagem que se propôs a fazer quando começou tempos atrás, e ainda parece enxergar muitos caminhos e possibilidades a frente. Um mar nunca antes navegado.

(Sea At Night em uma faixa: Between Jupiter And Mars)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.