Resenhas

Godspeed You! Black Emperor – Asunder, Sweet and Other Distress

Mais uma vez, banda mergulha em questões políticas através de seu pesado Post-Rock Instrumental

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Ano: 2015
Selo: Constellation Records
# Faixas: 4
Estilos: Post-Rock, Instrumental
Duração: 40:23
Nota: 3.0

Por muito tempo, Godspeed You! Black Emperor criou toda sua obra baseada em um ambiente pré-apocaliptico, deixando no ar aquela densa tensão do que estava por acontecer, uma névoa de mistério que encobria um futuro, provavelmente, muito obscuro. Allelujah! Don’t Bend! Ascend! (2012), primeiro disco do grupo em mais de doze anos, transformou em música muito da sensação do caos que domina nossos dias. Seu som belicoso estava profundamente enraizado nas questões políticas da panela de pressão no Oriente Médio. O terror que brota naquela região transparece nesse disco de forma ímpar, mostrando para os ouvintes, no conforto de seus lares, um pouco do medo, da sanguinolência e da violência que é se estar em meio a um embate desses.

Asunder, Sweet and Other Distress, por sua vez, parece nascer não como forma de alarmar algo que está por acontecer, mas algo que está acontecendo. Diferente de seus outros álbuns, ele não se preocupa em criar lentamente as tramoias e apresentar ao poucos o clima da obra ao ouvinte, ele simplesmente larga-o nessa vastidão devastada e árida que o mundo se tornou. Peasantry, or ‘Light! Inside of Light’ abre o disco já mostrando seu enorme peso que se acumula pelas guitarras e seus acordes dissonantes em uníssono. A opulência sonora se confunde com a opressão do timbres das guitarras e das linhas desenhadas pelo conjunto de cordas. Enquanto a bateria militarizada comanda uma marcha, os instrumentos bombardeiam uns aos outros em uma feroz luta por ter sua própria voz.

Ao mesmo tempo, o ouvinte se encontra perdido em meio a esse caos, enquanto um zumbido no ouvido e a sensação ainda meio dormente o faz o questionar o que está acontecendo ao seu redor – semelhante ao que foi apresentando em Fuck Off Get Free We Pour the Light on Everything, disco do projeto paralelo Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra, de alguns dos membros de Godspeed You. A dobradinha Lamb’s Breath e Asunder, Sweet começa desse ponto, no qual o ouvinte se encontra completamente desnorteado. Em meio a ruídos e drones, a faixa parece aos poucos ambientar o sobrevivente do bombardeio ao que está acontecendo ao seu redor. É como se a poeira baixasse lentamente e os sentidos voltassem a funcionar, como se o estado de choque começasse a passar e toda a destruição ao redor ficasse à mostra. Porém, uma nova onda de bombas está chegando.

Piss Crowns Are Trebled encerra o disco como sua faixa mais longa, passando dos treze minutos. Ela se alonga em uma construção mais lenta, que ascende aos poucos, mostrando a qualidade da banda na produção detalhada e na construção da tensão que leva a um clímax explosivo. Ela se mostra bem agressiva, mais uma vez usando a bateria como referência ao militarismo e belicismo, ao mesmo que cria a sensação de violência através de crescendos criados com as guitarras e o conjunto de cordas. Em meio a tanta dissonância e o caos, o pesadelo do apocalipse finalmente parece ter se estabelecido, o que a banda vem nos alertando desde 1997, e não há mais volta.

Somente com quatro faixas e pouco mais de quarenta minutos, sem contar o período tão curto entre os lançamentos das obras, Asunder, Sweet and Other Distress é também um dos discos mais coesos da banda, como se toda sua duração representasse apenas uma faixa ou uma ideia alongada de forma quase narrativa. Ao mesmo tempo, por ser tão sintético e direto ao ponto, é como se muito do drama e do teor cinematográfico tão presente na obra do coletivo canadense se perdesse no meio do caminho. Se os outros álbuns do grupo poderiam ser comparados com filmes de espionagem ou suspenses bélicos, esse me parece mais um filme de ação que se passa em uma zona de guerra. Ainda assim, um bom disco se comparado a suas obras anteriores e mesmo ao que outros grupos que se inspiram em Godspeed You estão fazendo.

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts