Resenhas

Godspeed You! Black Emperor – G_d’s Pee AT STATE’S END!

Novo disco do grupo canadense amplifica crítica política escancarando o caos da realidade a partir da força da música instrumental

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Ano: 2021
Selo: Constellation
# Faixas: 8
Estilos: Post-Rock, Experimental
Duração: 52'
Produção: Jace Lasek

Uma das finalidades mais comuns para a música é o protesto. Sob diferentes estéticas sonoras, composições têm auxiliado artistas a entregarem mensagens firmes e afiadas sob determinados contextos, principalmente em períodos conturbados politicamente. Punk, Rap e o Folk dos anos 1960 são alguns dos gêneros que consolidaram esse teor subversivo na música. O protesto pode aparecer de diversas formas e o elemento combativo é percebido, em especial, pelo conteúdo das letras expressas. Assim, fica o questionamento: seria possível fazer uma música de protesto se retirássemos as letras e deixássemos apenas os arranjos instrumentais serem o principal condutor do manifesto presente? Teria esta composição o mesmo efeito que as palavras duras? Se há uma banda que pode nos responder isso de maneira categórica e didática, é o Godspeed You! Black Emperor.

Consagrado nome do Post-Rock mundial, o grupo canadense tem lançado discos desde 1997, colocando como uma espécie de norteador artístico a qualidade da catarse. Escutar um disco da banda é uma experiência transformadora, pois alia os timbres expansivos e etéreos do Post-Rock a uma narrativa criada sempre no sentido de ascender. É como escutar uma história – não no sentido começo-meio-fim da coisa, mas percebendo que cada elemento presente, cada ruído, cada sonoplastia distorcida, serve a um propósito maior. Outra característica que define a sonoridade de Godspeed You!… diz respeito ao ar misterioso que envolve o título das composições. Como uma boa banda de Post-Rock instrumental, as interpretações e sentidos que a banda pode nos propor vêm sempre engatilhadas pelo título das músicas e estes, por sua vez, nunca são tão diretos e explícitos. Nada é entregue de bandeja. Acende-se uma faísca e, a partir de universos sonoros de cada canção, é que o sentido vai sendo criado. Com quase 30 anos de existência, o grupo mostra que domina o mistério.

Entretanto, isto é apenas uma parcela da grandiosidade de Godspeed You! Black Emperor. O elemento combativo e de protesto político sempre foi uma marca pontual da estética da banda. Alguns dos integrantes se posicionam como anarquistas e o teor político crítico fica expresso em algumas canções como “The Dead Flag Blues” e “Blaise Bailey Finnegan III”. Assim, em tempos de ascensões neonazistas, conflitos biopolíticos e pandemias mundiais, seria muito ingênuo supor que não haveria um posicionamento da banda em forma de disco. É justamente sobre isso, sobre esse dilúvio de conturbações políticas que o novo disco G_d’s Pee AT STATE’S END! trata.

Ao invés de apenas soltar críticas aos governos responsáveis, a banda opta por uma estratégia bastante agressiva: expor e representar, por meio de sua música, toda a desordem. Portanto, não é um disco de Post-Rock sobre se refugiar e pedir um tempo para encarar o real. É um disco que pega toda essa realidade e a coloca em um microscópio, deixando-a dez vezes maior e mais aterrorizante. Este recurso narrativo torna o disco ainda mais intenso (e potencialmente um gatilho emocional). Como para o grupo as músicas sempre têm contexto e intenção por trás, esta dinâmica de amplificar o que já é difícil de se ver tem um propósito: o de escancarar a seriedade das coisas.

O ímpeto discursivo do disco é desenvolvido de forma majoritariamente instrumental, ou seja, o que constrói os argumentos de crítica não são necessariamente algumas palavras esparsas ouvidas durante as faixas. São, entretanto, os elementos instrumentais, como: texturas caóticas, repetições de guitarra, baterias explosivas e monumentais e sintetizadores tenebrosos. Entretanto, há um elemento retirado dos primórdios dos primeiros discos do grupo que retorna como um fio condutor da crítica política do registro: transmissões de rádio. Percorrendo diferentes estações, inclusive utilizando a estática como recurso expressivo, o grupo reutilizou este instrumento em uma tentativa de observar, segundo o release da banda, o quanto as coisas tinham mudado desde a última vez que usaram o rádio em um disco. O resultado é assustador. Pastores de igreja que antes falavam “o fim está próximo”, agora gritam “o fim chegou”. Ou ainda, talk shows do interior do Canadá que falam sobre pegar armas caso os movimentos antifascistas continuem a existir.

O manifesto da banda é certeiro porque se escora, sem concessões, na realidade, não apenas nua e crua, mas aumentada – para que possamos conceber violentamente tudo. Não que o registro seja de todo pessimista, há até, no texto explicativo do disco, uma série de proposições que o grupo julga necessárias para modificar essa realidade. De qualquer modo, não é preciso cantar uma palavra para compreender a seriedade das coisas e esse talvez seja o grande ponto do disco: nos mostrar que, em tempos tão complicados, a realidade nos basta. E muitas vezes, nos excede.

(G_d’s Pee AT STATE’S END! em uma faixa: “A Military Alphabet (five eyes all blind) (4521.0kHz 6730.0kHz 4109.09kHz)” )

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.