Resenhas

gorduratrans – Paroxismos

Duo carioca produz obra intensa sobre investigação da tristeza

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Ano: 2017
Selo: Balaclava Records
# Faixas: 9
Estilos: Shoegaze, Noise, Post-Emo
Nota: 3.5
Produção: Gorduratrans

gorduratrans sabe, melhor do que ninguém, o processo doloroso do aprendizado pela dor. Não há um símbolo melhor e mais direto para representar o trabalho do duo carioca do que seu próprio nome, uma vez que, ao provar comidas com este tipo de molécula, malignas ao corpo, temos uma enxurrada de sentimentos gratificantes em nosso cérebro. Assim, encarando a dor, conseguimos aprender as melhores e mais importantes lições de nossas vidas. Com seu fantástico trabalho de estreia, percebemos que toda a sonoridade do projeto era voltada para uma confusão edificante, abusando de reverbs para criar texturas que traziam simultaneamente o caos e a beleza.

Mas será que agora, com o segundo disco recém lançado, o grupo continuaria se perdendo e remoendo entre dores, sem sair desta zona criativa? A resposta é sim, e devemos agradecer por isso. Paroxismos é uma grande âncora que nos permite afundar cada vez mais fundo dentro do universo de nossas dores, porém, acompanhado de escafandristas extremamente experientes nessa arte. Temos um disco que afirma, com plena convicção, o caminho que o duo escolheu seguir, mas, desta vez, mostrando cantos nunca antes explorados e profundidades mais escuras deste inconsciente. As texturas de guitarra parecem que estão mais difusas, como se a cada légua naufragada as formas de expressão ficassem cada vez mais abstratas. Além disso, as linhas de baterias ora suaves, ora explosivas, reforçam os graus de dores em um mesmo universo

O single 7 Segundos começa o trabalho uma ironia fantástica, nomeando desta forma uma das faixas mais longas do registro, como se poucos segundos de dor durassem uma eternidade. Problemas Psicológicos Se Tornam Físicos (O Homem Mais Forte Que Conheci), por sua vez, nos mostra como é plenamente possível trazer peso para uma música sem o uso de um baixo. Fotocópia talvez seja a mais sombria das composições do grupo, usando uma textura sem começo nem fim, como se este fosse apenas um fragmento desta compreensão mental. Um Samba Sobre A Minha Cova usa da confusão de timbres de bateria, guitarra e voz para mostrar como as coisas são pouco segmentadas em nossos pensamentos, nos desorientando em uma das melhores faixas do trabalho. Raso Demais é traiçoeira, nos levando por um caminho suave com acordes abertos de guitarra para depois nos tirar o chão e continuar com nossa queda em um dos momentos mais explosivos do registro. Por fim, Outra Vez acaba com esta intensa trajetória, pondo em questão se não há como descer ainda mais fundo, em uma belíssima balada ecoante.

Paroxismos é um disco sobre a compreensão da dor, o que não significa que senti-la dessa forma implica em suaviza-la. Para sentirmos completamente o disco, é preciso ser corajoso, pois é um álbum que requer de nós a certeza que esses caminhos terão um fim feliz, ou pelo menos recompensador. gorduratrans passa no teste do segundo disco, tanto pela certeza no som que fazem quanto pelo fato de se aprofundarem ainda mais naquilo que são mais experientes: compreender o sofrimento humano.

Um disco que faria Goethe chorar.

(Paroxismos em uma faixa: Raso Demais)

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BOM PARA QUEM OUVE: Máquinas, Slowdive, Chelsea Wolfe
ARTISTA: gorduratrans
MARCADORES: Noise, Post-Emo, Shoegaze

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.