Resenhas

Gorillaz – Song Machine, Season One: Strange Timez

Com time de convidados ilustres, novo álbum reafirma o que Gorillaz tem de melhor e ainda reserva surpresas muito bem-vindas

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Ano: 2020
Selo: Parlophone Records
# Faixas: 17
Estilos: Indie, Eletrônica, Rap Alternativo, Synthpop
Duração: 65'
Produção: Gorillaz, Remi Kabaka Jr., James Ford, Mike Will Made It, Mike Dean, Prince Paul, P2J, Robert Smith, Joan As Police Woman e Marzeratti

É divertido encarar Gorillaz como um projeto paralelo que cresceu descontroladamente a ponto de tomar mais tempo – e, francamente, se tornar mais interessante – do que várias outras empreitadas de seus criadores. Dá para fazer um breve faz de conta mental e visualizar um Damon Albarn, depois de ter entrado para a história como a voz à frente do a Blur, com a humilde intenção de se divertir ao lado do amigo Jamie Hewlett (um artista visual dos mais interessantes na cena alternativa britânica da virada do milênio) e, de repente, ver a brincadeira de ter um grupo “virtual” (uma palavra muito própria ali daquela época) tomar proporções gigantescas em popularidade, receptividade crítica e – com isso – demanda por novidades, de shows a clipes. Não à toa, o Gorillaz parece estar sempre em sua melhor forma quando trata sua música com o respeito que ela e os fãs merecem sem perder aquela atitude marota de apenas querer fazer um som legal. Felizmente, é o que notamos em Song Machine, Season One: Strange Timez.

Ao mesmo tempo que o álbum parece ter sido feito sob medida para os fãs que acompanham o grupo há duas décadas, reunindo várias de suas melhores características, é uma obra que tem um quê de “olha só o que a gente consegue fazer” ao longo de suas faixas. Se o disco impõe respeito ao trazer Robert Smith na abertura “Strange Timez”, a parceria com Beck em “The Valley of the Pagans” parece rir do ouvinte que ficou intimidado com a primeira faixa. É um “deboche do bem” sentido no clima propositalmente grandioso que essas faixas têm, seja pelo grande volume de elementos e camadas ou mesmo pela longuíssima lista de convidados que o álbum ostenta – além desses dois, St. Vincent, JPEGMAFIA, Unknown Mortal Orchestra e ScHoolboy Q são alguns dos nomes que aparecem nas músicas, ao lado de alguns novatos interessantes (como slowthai e Octavian) e veteranos de status quase sobrenatural, como o nigeriano Tony Allen (em uma de suas últimas gravações antes de falecer em abril), Peter Hook (Joy Division, New Order) e uma das maiores referências para a música Pop nos últimos 50 anos, Elton John.

Isso tem tudo a ver com as já mencionadas melhores características do projeto – e sim, saber reunir nomes de peso é uma delas. Mas o Gorillaz é uma banda que, por sua não existência (a tal “virtualidade” de ser representada por quatro primatas fictícios fazendo as músicas), carrega enorme fluidez em sua identidade. Se termos pré-estabelecidos ajudam a explicar o som (Indie, Soul e Eletrônica e por aí vai), a liberdade de apostar todas as suas fichas no que se quer fazer no momento costuma render os melhores momentos da carreira da banda. No novo disco, “Opium” (com EARTHGANG) faz jus a entrar nesse hall de destaques das duas décadas em atividade com um som que carrega desde influências africanas até o House ao longo de quase sete minutos. “Désolé”, com Fatoumata Diawara, lançada como single antes do álbum, aparece em versão estendida para deslizar sobre uma linha tênue entre o dançante e o contemplativo (algo que Gorillaz sempre fez muito bem); e “The Lost Chord” se veste de nostalgia para um Soul tão psicodélico quanto radiofônico adornado por sons de gaivotas e do mar quebrando na praia. São alguns dos exemplos da ousadia que se combina à ironia e ao desapego da auto importância. Essa linguagem típica do Gorillaz, que cria uma atmosfera rica musicalmente e com toques de galhofa, percorre o repertório.

Song Machine, Season One: Strange Timez é, portanto, uma coleção de faixas primorosa nos arranjos, na estética e nos convidados, retomando aquilo que Albarn, Hewlett e companhia têm feito de melhor todos esses anos. Seu lançamento multimídia, apoiado por vários clipes apresentados como “episódios” dentro dessa “season one” ao longo dos últimos meses, reforça ainda mais a identidade que o projeto sempre teve de ser mais do que só musical. Nesse desenvolvimento de um trabalho exibido com personagens desenhados, que nunca envelhecem, os artistas provam que conseguem manter um enorme grau de frescor em suas criações, entre surpresas muito bem-vindas e um confortável senso de familiaridade para quem já os acompanha há tanto tempo.

(Song Machine, Season One: Strange Timez em uma faixa: “The Valley of the Pagans”)

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ARTISTA: Gorillaz

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.