Resenhas

Grace Ives – Janky Star

Segundo disco da artista americana abre mão da formatação rígida de gêneros musicais para trazer uma sonoridade mais complexa e madura

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Ano: 2022
Selo: True Panther Recordings/Harvest Recordings
# Faixas: 10
Estilos: Indie Pop, Dream Pop, Synthpop
Duração: 27'
Produção: Grace Ives e Justin Raisen

Quando Grace Ives lançou seu disco de estreia, 2nd (2019), ela teve uma tarefa bastante audaciosa em mãos: compilar todas as demos e ideias que lançara previamente e consolidar o material em um mesmo contexto. Neste caso, a dificuldade da empreitada está em tentar catalogar uma obra tão diversa. Grace pode ter formalizado sua estreia naquele ano, mas sua proficiência e habilidade como letrista e compositora a levaram a explorar diferentes estilos e formatos anos antes daquele disco ficar pronto – dentre os quais, um dos mais curiosos, é sua famosa coleção de ringtones disponibilizada no Bandcamp sob o nome de RINGTONES!! Vol.1 (2017).

Além disso, Grace já se aventurou por gêneros como glitch hop e synth pop, sempre com uma boa melodia indie à mão para pescar a atenção de ouvinte mais saudosista. A partir de diferentes retalhos sonoros, Grace atuava como uma verdadeira veterana experimental dentro do pop – apesar de ter composto boa parte de suas canções quando tinha entre 15 e 18 anos.  Aos poucos, esta mistura de diferentes qualidades, aliada à voz sincera de Grace, atrai a atenção de diferentes públicos. Agora, três anos e uma pandemia depois de seu disco de estreia, poderíamos supor que ela se encontra no mesmo lugar de antes: com um novo disco e uma nova tentativa de agrupar tudo o que ela já explorou. Entretanto, a história agora é outra.

Em seu segundo disco, Janky Star, Grace Ives parece tomar uma atitude diferente de quando montou seu trabalho de estreia. Dessa vez, não se trata de tentar polir ou resumir tudo aquilo anterior a este momento, mas justamente, tentar caminhar na atitude contrária. Assim, o que antes era formatado sob uma estética indie/Lo-Fi, agora é exposto de forma menos “limitada” e mais direta. O disco é uma nova maneira de lidar com questões pessoais e de saúde mental a partir de uma mudança de postura: a de não fugir. Em entrevista para Pitchfork, ela comenta que a ansiedade é uma das questões mais presentes em sua vida e que, em determinado momento, compreendeu que estava bebendo e usando drogas para se ausentar da responsabilidade de lidar com esta ansiedade. Assim, ao invés de formatar as coisas, Grace se permite descobrir a sua própria linguagem – uma que encontra dificuldades para se definir. É indie, mas não é bem isso. Tem uns toques de house, mas também não é por aí. Há uma psicodelia constante, mas diferente da lisergia dos anos 1960.

Tentar definir uma estética para este trabalho é uma tarefa sem sentido. Para entrar a fundo em Janky Star é preciso focar na produção afiada de cada faixa – co-assinada por Justin Raisen (Yves Tumor, David Bowie, Kim Gordon). “Isn’t It Lovely” abre o trabalho pegando fogo, com batida acelerada e que usa respirações para simular um ataque de pânico. “Burn Bridges”, por sua vez, se aproxima de um pop mais digital, algo entre a produção sueca dos anos 1990 e a PC Music do final do 2010. “Shelly” traz as cativantes e famosas melodias indie de seus primeiros EPs – um mimo para os fãs de “longa” data. “On The Ground” traz toda espécie de sintetizador para fazer um hit dançante com referências à década de 1980. Por fim, “Lullaby” encerra o trabalho com uma canção catártica, que faz de todo aquele caos interno matéria prima para compor um humor otimista.

O que alguns poderiam considerar falta de coesão se torna o maior ativo de Janky Star. Quando ela resolve bancar essa vontade de traduzir seus sentimentos em diferentes linguagens, nasce um trabalho extremamente pessoal e autêntico. Não que os outros registros não fossem, mas é dentro da estética indie “frankenstein” que Grace reúne elementos necessários para demonstrar suas angústias de forma quase física no ouvintes. Há momentos de tensão no disco, mas todos servem a um propósito comunicativo. E é a partir desse caos interno que a cantora e compositora encontra os sons necessários para construir este novo passo em sua carreira – um passo decisivo e marcante.

(Janky Star em uma faixa: “Lullaby”)

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ARTISTA: Grace Ives

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.