Resenhas

Gross Net – Gross Net Means Gross Net

Segundo álbum da carreira solo de Philip Quinn fala sobre o impacto da política sobre as angústias pessoais de um indivíduo

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Ano: 2019
Selo: felte
# Faixas: 10
Estilos: Ambient, Post-Punk, Industrial
Duração: 43'
Produção: Gross Net

Entender a conjuntura política e ainda assim ter condições para manter a saúde mental é um desafio da atualidade. Dentro desse contexto em que o noticiário parece ser um banho de sangue, a música abre espaço para que sejam liberadas questões internas que podem ir desde um protesto frente aos acontecimentos até um desanuviar de sentimentos. Philip Quinn é um artista que lança mão dessa estratégia na hora de compor a sua sonoridade. E o mais curioso é que, para chegar nesse lugar de alívio mental, ele atravessa os assuntos ao invés de contorná-los. Ou seja, o caminho aqui é o da compreensão mais ampla, do olhar analítico e não somente o da reclamação frente a uma realidade dura.

Nascido na Irlanda do Norte, o compositor, multiinstrumentista e produtor consolidou-se musicalmente por meio de seu agora extinto projeto Girls Names, um ácido e estrondoso grupo de Post-Punk com um toque soturno e gótico de expressionismo alemão. A partir de 2015, Philip se concentrou em experimentar se expressar a partir da linguagem eletrônica, com uma predileção especial para o flerte com o Techno. A este projeto, Philip deu o nome de Gross Net e nele a sua crítica chega pelas construções melódicas para além das letras. Quantative Easings (2016) já revelava essa característica à medida em que distorções e “marteladas” iam crescendo quase como uma penalidade para quem se propunha a ouvir o disco.

Em Gross Net Means Gross Net, essa crítica se constrói com ainda mais eficácia. O disco foi pensado inicialmente como uma reação ao Brexit e isso fica evidente desde o título – segundo Philip, uma alusão ao slogan sem sentido proferido por Theresa May: “Brexit means Brexit” – até os títulos de algumas faixas, como “Theresa May”, “Social Nationalists” e “Of Late Capitalism”. À medida em que o processo de composição foi acontecendo, o autor percebeu que sua obra tratava da sua percepção e recepção da notícia de que o Reino Unido saiu da União Europeia. É, sim, um ataque aos governos responsáveis por essa decisão, mas trata-se também de uma compreensão mais subjetiva e individual desses fatos catastróficos.

Para atingir esse resultado, Philip utiliza diversos artifícios. Talvez, o mais interessante seja como ele costura diferentes gêneros musicais para criar este retrato vivo de suas aflições. Da música Ambient, ele empresta texturas etéreas e pads de sintetizadores fantasmagóricos para deixar no ar uma sensação de desorientação. É o caso de “Dust to Dust”. Do Post-Punk, as melodias vocais sofridas vêm com um toque dramático extra, como quem se depara com uma tragédia na frente de seus olhos (“Social Nationalist”). Em “Gentrification”, é sua relação com o Techno que entra em cena com uma batida incessante e impiedosa para massacrar qualquer batente militar.

É difícil imaginar que, em um período político conturbado, contraditório e quase distópicos, haveríamos de nos comportar de forma diferente do que o disco propõe. Gross Net Means Gross Net pode não ser especificamente sobre uma conjuntura que nós brasileiros enfrentamos, mas certamente podemos nos identificar com uma narrativa de uma pessoa sendo afetada por um processo político cruel. Philip fez um disco que retrata a complexidade dos sentimentos e angústias percebidas nesse período e ouvir o álbum é da mesma forma intenso, empático e, em certa medida, pode ser revolucionário.

(Gross Net Means Gross Net em uma faixa: “Shedding Skin”)

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ARTISTA: Gross Net

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.