Resenhas

Grouper – Ruins

Obra da cantora é introspectiva e depressiva e mostra seu melhor momento até então

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Ano: 2014
Selo: Kranky
# Faixas: 8
Estilos: Folk Experimental, Ambient Music, Post-Rock
Duração: 39:41
Nota: 4.5
Produção: Liz Harris
SoundCloud: /tracks/173383637
Itunes: https://itunes.apple.com/us/album/ruins/id909173677?uo=4

Sinceridade é a arma mais poderosa que um artista tem a seu dispor. A honestidade que um compositor usa para expressar sua música se mostrou sempre uma ferramenta que contribui, e muito, para a qualidade final do disco. Esse sentimento tem naturezas diversas, seja expressando seus sentimentos nus e crus, como em boa parte do trabalho do inglês Keaton Henson, ou mostrando a pura percepção de um eu-lírico acerca mundo que o circunda, como o novo disco de Kevin Morby. A verdade sempre vem a tona e esta é uma ferramenta que Grouper sempre dominou, mas em seu novo disco a sinceridade parece ter tomado um patamar novo, mostrando um ápice extremamente raro de se ver.

Ruins é o nono trabalho da compositora e produtora americana trazendo referências conhecidas de Ambient Music vistas em seu antigos discos, como o anterior The Man Who Died In His Boat, de 2013. Este trabalho, com exceção da última faixa, foi gravado em Portugal, em um ambiente construído dentro da Galeria Zé Dos Bois, usando nada além de um microfone Sony e uma mesa de som com quatro canais. Grouper diz que colocou as músicas no disco da maneira como foram captadas, de forma a trazer à mente do ouvinte o ambiente no qual ela gravou o piano e a voz.

Grouper nos mostra em meia hora, um processo que demorou bem mais do que isto. Aqui, suas faixas esboçam meses de uma “digestão de raiva política e lixo emocional”, segundo a própria compositora. É um diário realista e cru que nos mostra um sofrimento e melancolismo profundo e que, mesmo ele este sendo grande, ainda não é 10% do que de fato se passava pela cabeça de Grouper, afinal, perde-se muito quando se transpõe um pensamento em partitura. De qualquer forma, é chocante como ela permite que ouçamos suas teorias e pensamentos de forma tão fidedigna.

A melancolia e a sinceridade vem tanto pela não-preocupação com uma pós-produção extremamente detalhada e cheia de mixagens específicas quanto pela performance de Grouper. A artista já vem de um histórico extremamente artístico, culminando em sua apresentação de sete horas na qual ela procurou simbolizar o ciclo do sono da forma mais pura possível. Portanto, sua voz mais doce e rouca contribui e muito para a composição de um disco soturno e depressivo, fato que contribua para a escolha do nome do registro. São as ruínas de Grouper que ouvimos tão tristemente.

Faixas como Lighthouse, Holifernes e Holding mostram acordes simples e repetidos de piano, que servem de suporte para as vozes de Grouper, mas o destaque de fato fica por conta da extensa faixa que encerra o disco. Made Of Air é uma faixa que teria tudo para entediar o ouvinte, por levar o propósito do Ambient Music ao extremo. Porém, os timbres expostos aqui nos criam uma sensação de desorientação que chega a ser confortante. Estamos quentinhos dentro do subconsciente de alguém, em um limbo sem fim. Quase como uma sessão de massagem depressiva.

Ruins mostra uma evolução que, embora tenha demorado a chegar, agora chega em um ápice. Estamos lidando com o melhor momento da carreira de Grouper no qual, após ter passado por experimentos eletrônicos, se encontra diante de sua própria identidade, despida de qualquer disfarce digital ou de pós-produção.

Um disco que faz jus à metáfora dita, com ruínas destruídas, porém maravilhosas.

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.