Resenhas

Grouper – Shade

À vontade em meio às próprias memórias, Liz Harris compila canções compostas ao longo de 15 anos em exercício sensível e introspectivo

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Ano: 2021
Selo: kranky
# Faixas: 9
Estilos: Ambient Music, Folk, Chamber Pop
Duração: 35'
Produção: Liz Harris

Quando pegamos um disco para escutar, temos em nossas mãos um recorte temporal. Não apenas um registro sonoro de um determinada época e os reflexos dos contextos culturais, mas um trecho de vivências relatadas e expressas sob a forma de composições. É comum que este recorte diga respeito a uma fatia de tempo específica – como por exemplo nos discos de Adele, intitulados com sua respectiva idade. Ou ainda, de forma menos explícita, sob um período da vida específica, como a ode adolescente do disco de estreia de girl in red. Compreender este tempo é parte indispensável da apreciação de um trabalho, permitindo que o ouvinte não apenas se situe na história narrada, mas se aprofunde e se identifique com o dilúvio de histórias. Por muito tempo, a cantora e compositora Liz Harris foi essa artista preocupada em trazer composições de períodos específicos, fechando conceitos coesos e bem polidos. Entretanto, as coisas parecem ter mudado para ela e, por consequência, a experiência de ouvir seus registros transforma-se em igual proporção.

Liz é o nome à frente do ambicioso-cauteloso projeto Grouper. Com mais de 15 anos de carreira, este nome é responsável por trazer discos reconhecidos pela imersão em referências que vão da Ambient Music ao Chamber Pop e o Folk. O imaginário sonoro construído é denso e repleto de texturas ecoadas e frias. Ao invés de apelar para as letras como recurso comunicativo, sua estética musical é o que dita parte dos direcionamentos a serem seguidos pelo ouvinte. Por isso, escutar um trabalho de Grouper é sempre uma experiência que envolve não apenas os sentidos, mas as memórias. Discos como The Man Who Died In His Boat (2013) e Ruins (2014) são exemplos pontuais de como Grouper arquiteta sua narrativa em volta de memórias e sinestesias. É, de fato, algo que transcende a música pelo entretenimento.

Como esperado, o nono disco de estúdio também traz como matéria-prima suas memórias. Dessa vez, Liz foi buscar ainda mais longe o que procurava e, reuniu 9 músicas compostas ao longo de 15 anos. Este período recobre a juventude e idade adulta da compositora, tornando-se uma espécie de compilação de reflexões ao longo de sua vida recente. O que poderia ser uma junção de partes muito distintas entre si, revela-se, na verdade, um produto coeso e que funciona harmonicamente. A maior parte das composições aqui é feita em um violão, como se Liz tivesse gravado essas composições em um impulso criativo durante uma noite qualquer. Por isso, o formato Lo-Fi é tão precioso na construção da identidade de Grouper – pois ele acaba se tornando um recurso que evidencia a preocupação dela em trazer as coisas da forma mais honesta e sincera possível. Tão sincera que, em determinados momentos do disco, é possível ouvir ela recomeçando certas partes da música – como se tivesse errado, mas não quisesse apagar isso do trabalho. Ou ainda, conversas e risadas com, aparentemente, produtores ou engenheiros de som.

Nessa imersão profunda, Shade começa com “Followed the ocean”, repleta de distorções desorientadoras que funcionam como uma forma nada gradual de imergir dentro das memórias de Liz.. “Ode to the blue” se aproxima mais do Folk, com poucos acordes e uma voz frágil que se sustenta por toda a música – como se ela estivesse por um fio de nos soltar, mas segurando forte em nós. “Disordered Minds” traz um lado mais focado nas texturas Ambient tão reconhecidas de outros discos – algo que toca o melancólico e o caótico, mas não deixa de ter uma beleza autêntica e harmônica. “Promise”, por sua vez, retira todos os excessos, deixando apenas o violão e a voz de Liz para contar sua história. Por fim, “Kelso (Blue sky)” encerra o disco em uma tonalidade quase sagrada, principalmente pelos vocais amplos, como se estivessem em uma igreja – uma espécie de culto à sua memória.

Grouper continua sendo o espaço confortável e precioso de Liz Harris,seja para experimentar dentro de suas memórias ou convidar os ouvintes para que façam o mesmo com as suas próprias histórias. Por isso, é importante que ela esteja circundada por sons e referências que lhe evoquem uma paixão. Não se trata apenas de criar um universo próprio, mas de se sentir confortável o suficiente para não precisar editar nenhuma parte sua. Shade é Liz Harris, por inteira.

(Shade em uma faixa: “Kelso (Blue sky)”)

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ARTISTA: Grouper

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.