Gruff Rhys – Babelsberg

Músico veterano investe em um Pop orquestral para sua crítica ao mundo de hoje

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Ano: 2018
Selo: Rough Trade
# Faixas: 10
Estilos: Rock Alternativo, Pop Alternativo, Chamber Pop
Duração: 40:57
Nota: 4.0
Produção: Gruff Rhys

Gruff Rhys é o tipo de artista do qual podemos esperar praticamente tudo em termos de boa música. Líder do sensacional Super Furry Animals no passado recente, do projeto Neon Neon há menos tempo e dono de uma carreira solo antissistema, na qual leva adianta sua visão pouco ortodoxa da música Pop, Gruff cultiva um fiel público, sempre disposto a ouvir suas experimentações e criações. Eletrônica, Pop setentista, Psicodelia sessentista, Gruff é capaz de se apropriar destes gêneros e reinterpretá-los, tornando-os seus de fato, além de conferir-lhes traços inequívocos de sua adorável esquesitice galesa, um item sempre presente em suas façanhas. Com este ótimo Babelsberg não é diferente: Gruff se sai com ótima música.

As dez faixas do álbum são pequenos libelos contra o estado atual do mundo, seja no plano coletivo, seja na visão pessoal que temos do que está à nossa volta. Às vezes isso pode ser traduzido num ponto de vista ou numa visão tão confessional quanto a que abre Same Old Song, a oitava canção do disco, expressa pelo cortante verso: “Coughing blood on an American tour left me bewildered, concerned for my future”. Isso quer dizer: caramba, se eu não abrir os olhos, vou fechá-los para sempre. Apesar disso, o que Babelsberg oferece é a ideia de que, sim, amigos, o mundo vai muito mal, ninguém se entende (implícito na referência bíblica contida no título) e tudo pode piorar ainda mais, uma noção que é alimentada diariamente pelos noticiários e pelo fluxo ininterrupto de absurdos absurdantes em diversos níveis.

O que diferencia Babelsberg de outros discos que fazem análises de conjuntura é o seu aspecto musical. Gruff esperou dois anos para contar com a BBC National Orchestra Of Wales, composta por 72 pessoas, que ele convidou para participar dos arranjos e concepção das faixas. O resultado é um álbum Pop como eles costumavam ser na virada dos anos 1960/70, com arranjos luxuriantes e resultados que não soariam fora de contexto em álbuns de gente como Glen Campbell, Serge Gainsbourg ou Lee Hazlewood. Se você nunca ouviu falar neles, jovem, sugiro que vá atrás de suas criações. A impressão final é de que estamos ouvindo as trombetas do apocalipse soando da forma mais harmoniosa e doce possível, com inventividade e apuro técnico/sentimental.

A quantidade de canções ótimas é enorme. Frontier Man, logo de cara, é um mix de vocais de um jovem Leonard Cohen com arranjos que não soariam feio dos discos que Frank Sinatra gravava por 1967/68, não por acaso, produzidos e concebidos por Hazlewood e sua equipe. Limited Edition Heart é outro exemplo de harmonia e beleza instrumental para revestir letra de desencanto emocional em vários planos, enquanto a já citada Same Old Song, a scottwalkeriana Architecture Of Amnesia e a bela Selfies In The Sunset fecham o álbum com chave de outro e uma demonstração inequívoca de ourivesaria pop atemporal, sendo que a última é um belo dueto com a cantora Lily Cole.

Gruff Rhys segue com seu nome respeitado e sendo associado a ótimas realizações musicais. Babelsberg é sua mais ambiciosa obra até agora, nem por isso abre mão do potencial Pop ou investe em confinamentos estéticos. É um disco que te abraça e faz carinho. Deixe.

(Babelsberg em uma música: Architecture Of Amnesia)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.