Resenhas

Guaiamum – Guaiamum

Disco de estreia é delicado e explora várias nuances do Folk

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Ano: 2016
Selo: Independente
# Faixas: 10
Estilos: Folk, Folk Alternativo
Duração: 39:51
Nota: 4.0
Produção: Daniel Ribeiro e Vitor Moraes

Costumamos dizer por aqui que há aspectos bons e ruins na fragmentação do mercado musical mundial. Se o lado negativo disso é a massificação cada vez maior da presença de “artistas” cujas obras são norteadas apenas pelos cifrões e pelo consumo puro e simples de suas canções, o lado positivo da equação nos mostra o surgimento cada vez maior de gente que vai na contramão disso, produzindo álbuns que não têm qualquer pretensão de – ou foram feitos para – escalar paradas de sucesso, mas que podem – e devem – agradar públicos fragmentados ao redor do mundo. Esta estreia musical homônima de Guaiamum é mais uma prova disso. Se não vai tocar na novela em horário nobre, vai estar acessível em serviços de streaming de alcance mundial e certamente irá despertar a atenção de apreciadores de vertentes atuais do Folk, especialmente os admiradores dos trabalhos de gente como Jeff Buckley e Iron And Wine.

Guaiamum é um projeto de Daniel Ribeiro, cantor, compositor e multinstrumentista, com formação acadêmica na bagagem e gosto musical forjado na interseção do Rock Progressivo, do Rock alternativo dos anos 1990 e, é claro, de artistas Folk surgidos no mesmo período. A ideia de gravar algo neste clima plácido e folkster foi surgindo aos poucos, enquanto Daniel empunhava guitarras em bandas com sonoridade mais pesada. Após uma temporada no exterior, as composições vieram mais nítidas e numa quantidade maior do que esperado. Ao contrário de um EP, Daniel viu-se com material suficiente para um álbum completo. Como não tinha pressa, a gestação das composições de Guaiamum, o disco, foi no tempo certo, sem atropelos ou demandas mercadológicas. Ele teve tempo para criar um ecossistema musical complexo, à parte, quase preservado deste insensato mundo de hoje. Ao mesmo tempo, sem soar paradoxal, as canções se completam na tentativa de fornecer uma obra que se vale não só da delicadeza do Folk mas também de toda a tensão e pujança que ele pode comportar.

São dez faixas diferentes entre si, mas unidas por este conceito não-declarado. A abertura instrumental com Dawn, traz o sintomático elemento da aurora, do início do dia, num clima de frio, com instrumentos de corda, dedilhados, percussões e acordeons, numa sugestão de que podemos estar, musicalmente, em algum lugar do Hemisfério Norte. A seguir, dentro de Future Archaeology, Guaiamum lembra bastante alguma passagem de Elliott Smith a princípio, seja na voz dobrada e sofrida ou no dedilhado do violão. O single Convenience chega logo em seguida, com uma levada mais linear de bateria, mas ainda calcado nos violões e na voz de Daniel, com total inflexão derivada de Jeff Buckley, mas soando como se ele estivesse em alguma paisagem mais natural e fria. Riot, logo após, é introduzida por dedilhados de violão e banjo, evoluindo para uma canção noturna e triste, pontuada por pegadinhas vocais de apoio e uma expectativa de explosão instrumental em algum lugar no caminho da canção, mas que nunca chega, causando uma sensação estranha, mas interessante, sobretudo pelo uso da guitarra nos momentos finais.

Mais placidez surge no dedilhado de violão de Season, mais uma canção verdejante, sobre lembranças de amores perdidos e espirais do tempo que teimam em nos confundir. Talvez seja a melhor performance vocal de Daniel em todo o álbum, suportando tristeza e saudade ao mesmo tempo. Gotas surge em seguida, uma vinheta de menos de um minuto, anunciando a transição para a segunda parte do álbum, que chega com For You, mais calcada numa sonoridade de banda, de Folk Rock, mas não menos interessante. A torturada Monument vem logo após, com ritmos em câmera lenta, assim como a graciosa Isa’s Roadtrip, que parece alguma faixa de bandas noventistas como Grant Lee Buffalo ou American Music Club, esquecidas pela maioria, celebradas pela fidelidade dos admiradores. A pastoril Endowment, inicialmente dedilhada, depois enguitarrada e atormentada, fecha o álbum de forma intensa.

Guaiamum, uma espécie de caranguejo, também é agora sinônimo de belo trabalho musical, mostrando que Daniel Ribeiro, idealizador e executor de tudo o que está presente nestas dez faixas, é um nome para se ter ao alcance da vista. E dos ouvidos. Belo disco.

(Guaiamum em uma faixa: Season)

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ARTISTA: Guaiamum

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.