Guerrinha – Wagner

Produtor carioca compila seu fascínio pela década de 80/90 em disco suave e contemplativo

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Ano: 2018
Selo: Independente
# Faixas: 8
Estilos: Smooth Jazz, Soft Mall, Soft Mall
Duração: 18:19
Nota: 4.0
Produção: Gabriel Guerra

Há tempos nos envolvendo com seu fascínio pelas sonoridades da década de 1980/90, o carioca Gabriel Guerra mostrou em cada projeto particularidades que traziam diferentes aspectos do mesmo zeitgeist. Séculos Apaixonados traduzia uma experiência romântica com timbres distópicos. Já Crusader de Deus era veloz e voraz em sintonia com a acelerada e arcaica tecnologia que se desenvolvia. E, no selo de música Eletrônica 40%Foda/Maneiríssimo, videogames e infomerciais se juntavam em nomes como Repetentes 2008 e Os Maneiros. Agora, com tanta experiência e investigação de samples do final do primeiro milênio, Gabriel está pronto para usar tudo isso a favor da única narrativa que ainda não ouvimos sair de seus teclados MIDI: a sua.

Sob o nome carinhoso de Guerrinha, o produtor e compositor carioca traz à vida um retrato soturno de seu passado sem necessariamente apelar para uma característica confessional do singer-songwriter típico.Seu registro Wagner, cujo nome é referência a seu ídolo do futebol botafoguense, ganha a característica de disco apenas pela comodidade, pois seu verdadeiro aspecto se assemelha bem mais ao de um museu vazio (visitado durante o período da noite), nos conduzindo por diferentes locais, descritos nos títulos das faixas.

Nessa visita, quem nos guia é um saxofone breguíssimo MIDI (tecnologia da qual Guerrinha já é fã nato) e entre arranjos de jazz suave e reverbs grandes, somos guiados a perceber este ambiente construído: de uma cidade noturna, chic e que comporta memórias diversas de sua juventude. A voz de Guerrinha é totalmente dispensável porque não precisamos de palavras para entender aquilo que sentimos entre as percussões ecoadas e o saxofone quente e imersivo.

Assim, começamos o passeio noturno com Chalé, um aconchegante reduto que aos poucos abaixa as luzes da cidade e as deixa em média intensidade, quase com um ar noir. Gazebo, em tons de um Jazz àlla Jô Soares, não faz questão de esconder a predileção de trabalhar com o MIDI e o artificialismo proveniente destes timbres. Auditório, em pleno e majestoso reverb, nos deixa um pouco menos presos às estruturas rítmicas e mais à deriva do espaço criado entre as notas. Por fim, Bosque, um pouco mais free jazz é o encerramento perfeito, como se o segurança do museu nos avisasse que eles estão encerrando o expediente, o que não diminui em nada nossa vontade de continuar a escutar este suave registro.

A sonoridade criada por Guerrinha pode ter muitos rótulos como Vaporwave, Soft Mall, Música de Elevador, Ambient Music, Smooth Jazz, entre outros. Mas, de qualquer forma, é este o terreno no qual Gabriel Guerra se mostra mais confortável para mostrar suas memórias e seu passado de uma forma que vai além dos lugares comuns daqueles gêneros mencionados. Um disco para se perder dentro.

(Wagner em uma faixa: Auditório)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.