Resenhas

Gus Dapperton – Orca

Segundo disco de sensação do Bedroom Pop traz amadurecimento, dribla o estereótipo “diferentão” e enfrenta emoções e contradições

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Ano: 2020
Selo: AWAL
# Faixas: 10
Estilos: Indie Pop, Bedroom Pop
Duração: 37'
Produção: Gus Gaapperton

Gus Dapperton pode ter pouco mais de 20 anos de idade, mas já pode ser considerado um ícone de uma geração. Ele encabeça um gênero relativamente recente: o Bedroom Pop, movimento com heranças fortes do sentimento Do It Yourself Indie e Punk, porém repensado para uma década na qual a tecnologia musical se mostra mais acessível. Assim, apesar de uma curta discografia, Gus concentrou para si as funções de produtor, compositor, letrista, engenheiro de som e artista gráfico de seu projeto musical, fato que chamou a atenção por apresentar um produto não só coeso, mas extremamente interessante e chamativo em temática e estrutura.

Registros como o marcante EP Yellow and Such (2017) e seu disco de estreia Where Polly People Go To Read (2019) abordam um sentimento típico da juventude – quando as coisas parecem eternas e você se sente indestrutível. Uma espécie de sentimento ensolarado de “Alright”, do Supergrass, sob uma ambientação mais tímida e repleta de sintetizadores Lo-fi. Agora, pouco tempo depois de seu último álbum, Gus opta por mostrar um lado menos conhecido. Um lado onde os raios solares cedem espaço para uma noite mais fria.

Orca traz uma faceta mais melancólica de Gus Dapperton. Este é um momento no qual o compositor procura investigar emoções menos expansivas e alegres, tomando coragem para tocar em assuntos sensíveis. Em entrevistas, Gus já comenta que sempre foi acostumado a fazer músicas divertidas e dançantes e que isso, de uma maneira ou outra, o fez ignorar completamente o outro espectro de seus sentimentos. O próprio título do trabalho evoca uma eficaz metáfora para esta tarefa de investigação emocional. A ideia era contrastar a aparente força e magnitude das baleias orcas com o fato de que, em situação de cativeiro, são um dos animais que mais sofrem. Em síntese, o disco fala sobre dor e sofrimento frente ao isolamento. Não necessariamente o isolamento da pandemia, mas um momento de se retrair e se permitir sofrer.

Assim, Orca é um trabalho realmente intenso, que conserva muitas características sonoras de outros registros. O que poderia ser uma ótima oportunidade para Gus imprimir elementos mais melancólicos e soturnos à sua sonoridade transforma-se em um momento para reafirmar aquilo que sempre gostou de fazer. Uma statement em que Gus não se vê obrigado a mudar sua sonoridade, apenas porque o tema das letras mudou significativamente. Na verdade, a sonoridade alegre e upbeat dá um sentido ainda mais realista para o largo escopo de emoções destas canções. A permissão de se alegrar com emoções intensas. Ou poder chorar dançando (no melhor estilo “Dancing On My Own”, de Robyn). É um amadurecimento de Gus, que agora se vê muito mais vulnerável do que aquele jovem inatingível do EP Yellow and Such.

Como uma advertência emocional, o disco se inicia com a leve balada “Bottle Opener”, na qual Gus e uma voz feminina reiteram: “Nunca deixem eles te afetarem”. Em seguida, “First Aid” emprega fortes acordes enquanto o jovem compositor fala sobre tentativas de conduzir a vida, pedindo desculpas pelos erros e se justificando que ele ainda está “aprendendo a ter medo”. “Palms” pode ser um refúgio para aqueles apaixonados pela estética Lo-fi/Bedroom Pop, que buscam uma canção de coração partido à luz de acordes ensolarados. “Antidote” ocupa um grande espaço com seus reverbs infinitos, que condizem com o volume de pensamentos que Gus tem que lidar, ao remoer insistentemente frases como “Por favor, não me leve de volta, embora você diga que está tudo bem”. Por fim, “Swan Dog” encerra o trabalho em uma balada Indie confortável, criando um colchão para que possamos cair em segurança nas últimas palavras do disco: “Apesar de eu evoluir, eu ainda sou o mesmo do que era junto a você”.

Em Orca, Gus Dapperton se liberta do estereótipo do diferentão do Bedroom Pop. Aqui, ele mostra que suas composições têm mais do que um teor adolescentesco e ingênuo, colocando-se como hábil produtor e  compositor que compreende as minúcias sentimentais dos 20 e poucos anos. É um trabalho extremamente acessível, e, com palavras simples, ele consegue alcançar uma variedade imensa de ouvintes. Gus se mostra um prendado compositor do Pop, enquanto investiga emoções e explora contradições.

(Orca em uma faixa: “First Aid”)

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ARTISTA: Gus Dapperton

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.