Resenhas

HAIM – Women In Music Pt. III

As irmãs retornam livres, confiantes e espontaneamente criativas no melhor disco da carreira do trio até aqui

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Ano: 2020
Selo: Universal Music
# Faixas: 16
Estilos: Indie Pop, Rock Alternativo
Duração: 52'
Produção: Danielle Haim, Rostam Batmanglij, Ariel Rechtsaid

O título Women In Music Pt. III, novo disco das HAIM e sucessor de Somehing to Tell You (2017), surgiu a partir de um sonho da vocalista/guitarrista Danielle. Ela logo tratou de ligar para as irmãs, que riram e adoraram a sugestão. Ah, e o nome ainda traria um bônus importantíssimo: elas nunca mais teriam que responder à entediante pergunta “como é ser mulher na música?”. Pronto estava decidido. Ao final da audição do novo álbum – que eu tive o prazer de conhecer (e escutar sem parar) há quase um mês –, emerge um sentimento de confusão, no bom sentido. Esse disco é exatamente sobre o quê?

Mesmo que, ao longo do ano passado, o trio (de maneira livre e sem pressão, como já disseram em várias entrevistas) tenha lançado três faixas – “Summer Girl”, “Hallelujah” e “Now I’m In It” – nós, fãs, permanecíamos no escuro quanto ao lançamento de um novo álbum. Em fevereiro desse ano, os primeiros spoilers surgiram via Instagram: um vídeo das três devorando um cachorro quente. A aparição serviu de pista para como seria o novo capítulo da história da banda – como o vídeo, espontâneo. No mês seguinte, veio o anúncio de que um álbum cheio seria lançado em abril

Poucos dias depois, a banda iniciou uma pequena turnê de divulgação em delicatesses em cidades como Nova Iorque, Chicago e Washington. Uma forma de celebrar os 20 anos do primeiro show das irmãs, na delicatesse Canters, em Los Angeles. Mais um ponto para se levar em consideração: pocket shows em delicatesses. Esse seria, definitivamente, um trabalho descontraído e algo como um resumo da trajetória das HAIM até aqui. Subitamente, a pandemia interrompeu a pequena turnê e elas soltaram uma nota dizendo que o álbum sairia lá por setembro. Como, em 2020, a única certeza que temos é a de que nada é certo, elas voltaram atrás e definiram uma nova data, a de hoje (26 de junho).

Para divulgar o novo trabalho durante a quarentena, as irmãs acharam maneiras divertidas de se conectar com os fãs, como, por exemplo, aulas de coreografias dos clipes. Essa que vos fala participou da primeira aula e, sim, foi muito divertida – de uma forma diferente, me senti mais perto delas do que nunca. Elas ainda participaram de Late Shows tocando, em suas respectivas casas, os singles “The Steps” e “I Know Alone”.

Vamos ao álbum? The Women in Music Part III é o melhor cartão de visita para uma pessoa que nunca ouviu HAIM começar a entender os mares sonoros por onde elas navegam. À primeira audição, já percebemos uma arrebatadora variedade de estilos. À segunda, fica claro que se trata de uma jornada por tudo o que as meninas viveram, ouviram e sentiram. Como uma colcha de retalhos que representa o que é a banda: jovens de 30 anos que cresceram ouvindo de tudo, criam letras nascidas de lugares delicados ou tristes, que resultam canções com apelo Pop irresistível.

No celebrado debut de 2013, Days Are Gone, elas flertaram intensamente com o Indie Pop e, quatro anos depois, em Something To Tell You, as influências vieram de guitarras açucaradas dos anos 1970/1980, ao estilo Fleetwood Mac e Tom Petty, além da energia do Synth Pop típica de Prince. O novo trabalho – produzido novamente em parceria com Ariel Rechtshaid (Adele, Carly Rae Japsen) e Rostam Batmanglij (Clairo, Vampire Weekend) – traz Danielle Haim com mais voz e peso em relação às decisões do produto final. Este, a baixista, me contou em entrevista para Harper’s Bazaar Brasil, que o papel da irmã foi mais definitivo do que nos outros discos, fazendo dela o ponto central de diálogo entre os três produtores. Talvez por isso ecoem referências explícitas a Jai Paul e (Sandy) Alex G, dois dos artistas contemporâneos favoritos de Danielle, especialmente em faixas como – a minha favorita – “Gasoline” e a cheia de camadas “3 A.M.”, basicamente sobre a famosa booty call.

“Los Angeles”, faixa de abertura, traz elementos alegres e soa como o tipo de música para ouvir à beira da piscina. Ela conversa muito com “Summer Girl”, faixa de encerramento inspirada no clássico “Walk On The Wild Side”. Os cantaroláveis “Doot, do, doot, do..”, a linha de baixo e os sopros remetem imediatamente à imortal canção de Lou Reed, que, inclusive, fora creditado como compositor. A canção ainda traz um dos versos mais comoventes da carreira do grupo: “Walk beside me / Not behind me” (“Ande ao meu lado, não atrás de mim”), uma declaração de amor de Danielle ao companheiro de vida e trabalho, o produtor Ariel Rechtshaid, diagnosticado com câncer em 2015.

Quem acompanha a carreira das irmãs sabe que a cantora Joni Mitchell sempre foi uma grande influência, e em “Man From The Magazine” isso fica ainda mais evidente. Danielle entoa as palavras de maneira quase falada, aos moldes de Mitchell em “Coyote”, enquanto o violão parece influenciada por “This Flight Tonight” . Um dos grandes acertos do disco, mostrando a versatilidade dos vocais de Danielle, e ainda uma bela homenagem a um dos maiores nomes do Folk de todos os tempos. A letra, de quebra, aborda episódios constrangedores promovidos por jornalistas homens machistas e babacas.

“Another Try” é outro ponto alto dos 52 minutos. Faixa deliciosa, coloca pela primeira vez influências de Dub e Ragga no universo ensolarado das HAIM. Pode confundir os ouvintes, ao mesmo tempo em que atesta a confiança em se aventurar por sonoridades que enriquecem o catálogo da banda.  O single “I Know Alone”, outro destaque (mais um!), se escora em uma base eletrônica, que soa como um Miami Bass noventista, mas desacelerado e minimalista.

Ainda sobre confiança, controle do produto final e se sentir leve para lançar o trabalho: temos um novo corte de cabelo. Existem estudos que dizem que o corte de cabelo está relacionado à autoestima da mulher, e que uma mudança radical pode, sim, injetar mais confiança. Danielle, a vocalista tímida que, no início da banda, quase não falava em entrevistas e pouco mudava as roupas que usava (basicamente calça e camiseta), alavancou sua confiança nos últimos anos. Isso fica visível no novo álbum – é o momento em que ela floresce totalmente. No começo do ano, ela cortou o cabelo curtinho, dando tchau às longas madeixas. Apareceu em fotos de divulgação usando apenas um top e uma calça, algo difícil de imaginar em 2013. O poder que uma mulher ganha quando ela finalmente entende do que é capaz e aceita que é boa no que faz. É lindo de se ver. Aqui, Danielle desponta como líder das HAIM e ainda mostra uma feminilidade que assume uma forma de força e poderio criativo.

Women In Music Pt. III tem a ver com isso: quanto mais confiança e liberdade uma mulher tiver para depositar em um trabalho, melhor será o resultado. No terceiro disco, a autonomia e a combinação entre influências diversas surgem mais certeiras do que nunca e, como resultado, o repertório carrega a musicalidade mais cativante apresentada pelas HAIM até aqui.

(Women In Music Pt. III  em uma faixa: “Gasoline”)

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ARTISTA: Haim