Resenhas

Hamilton Leithauser + Rostam – I Had a Dream That You Were Mine

Trabalho colaborativo entre duas figuras do Indie Rock traz justificativas à sua existência

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Ano: 2016
Selo: Glassnote
# Faixas: 10
Estilos: Indie Rock, Folk Alternativo
Duração: 41:00
Nota: 4.0
Produção: Rostam Batmanglij

Existem certos encontros na música que ocasionam suspiros imediatos após o seu anúncio. É normal a união entre célebres artistas e produtores para que cabeças respirem e novos horizontes sejam abertos, no entanto nem sempre simples uniões dão certo. Podemos contar inúmeras parcerias que não se sustentam ou justificam, por isso, é surpreendente ouvir I Had a Dream That You Were Mine, um disco funcional e inspirado.

A sinergia entre Hamilton Leithauser e Rostam Batmanglij está por todo o trabalho e transpira o conhecimento mútuo que vai além das simples interações. Ambos se comunicam como se fossem amigos há muito tempo, algo que já foi evidenciado em entrevistas. É um trabalho que Rostam, ex-membro, produtor e multi-instrumentalista de Vampire Weekend], sonhava em fazer faz tempo, como o mesmo artigo documenta – canções, melodias e instrumentos já haviam passado pela sua cabeça ao ouvir o ídolo Hamilton há tempos, quando ele ainda ocupava a dianteira de The Walkmen.

A situação atual de ambos – Rostam decidido a largar sua banda, enquanto Hamilton, mais velho e que se vê a deriva em um hiato de seu grupo – parece definir a qualidade desse documento. Não é um simples disco que surge no meio de um descanso de turnê ou na fácil justaposição de agendas, mas o que parece definir ambos artistas. O resultado é pertinente, verossímil e pode ser considerado como o disco perdido dos dois, claramente mais classificado como a banda de Leithauser.

A voz indescritível e única de Hamilton nos faz pensar que estamos diante de um trabalho perdido de The Walkmen, porém, muito mais bem definido diante das suas qualidades como vocalista. O disco flerta muito com a música americana do século 20; Rock dançante de cabaré na bonita Rough Going (I Don’t Let Up), introspecção e toques de Leonard Cohen em In Black Out e um Folk Caipira cheio de banjos e instrumentos inusitados compostos por Rostam na espirituosa e “dylanesca” Peaceful Morning. Tais momentos só mostram como a visão de um produtor pode tornar objetos em produtos inesperados – o Country de The Morning Stars, é, por exemplo, uma das grandes canções do Indie em 2016.

Rostam encaixa Hamilton em uma série histórica de música americana, porém a traz sempre aos dias atuais – o disco passa longe de clichês de época e se posiciona como um kit de elementos passados incorporados ao presente como se um canivete suiço fosse usado para montar um kit DIY de Arduino. É o convite ao vocalista se reinventar sem perder sua essência. O maior exemplo talvez resida em When The Truth Is…, canção facilmente atemporal que traz produções de voz modernas e quebradas musicais que nos lembram o melhor de Vampire Weekend em seu último disco.

Sem enjôos ou sustos, o modo com que I Had a Dream That You Were Mine flui, impressiona. Mostra novamente o porquê da voz de Hamilton ter sido idolatrada no meio Indie, porém, longe de batidas puramente roqueiras e distorções, Rostam procura orquestrá-la e justificá-la – é o instrumento perdido que ele almejava tocar há tempos. Assim, o produtor se posiciona como não só um visionário, mas também como um construtor e adminstrador, unindo ambos em um projeto sincero, inspirador e que pode trazer belos frutos no futuro. Por enquanto, o presente nos mostra que a relação de ambos é benéfica, necessária e, se Leithauser diria que se aposentaria em seu disco solo, Black Hours, tal pensamento pode ser colocado de lado.

(I Had a Dream That You Were Mine em uma música: The Morning Stars)

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.