Resenhas

Hand Habits – Fun House

Em seu terceiro trabalho, Meg Duffy encontra novas formas de lidar com questões pessoais em investida sincera e otimista pelo Folk

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Ano: 2021
Selo: Saddle Creek
# Faixas: 11
Estilos: Folk, Indie Pop, Synthpop
Duração: 41'
Produção: Sasami Ashworth

Do contexto caótico do COVID-19, começou a surgir uma modalidade de disco muito peculiar: o álbum de pandemia. Na tentativa de dar vazão a toda espécie de sentimento advindo de um contexto incerto, artistas e bandas criaram, cada um à sua maneira, registros tentam captar o zeitgeist da pandemia. Há muita introspecção emocional, mas também há espaço para a crítica política e econômica – deixando ainda mais evidente que esse maniqueísmo de interno/externo é na verdade uma relação constante entre os dois. Para muitos, foi um cenário que contribuiu para pensar em novas formas de produção – fazendo muitos se virarem nos 30 para compor e produzir trabalhos de forma remota. Para todos os efeitos, Meg Duffy é um destes nomes, porém os novos caminhos seguidos não parecem ser um reflexo única e exclusivamente causado pela pandemia, mas um passo natural de sua evolução enquanto artista.

Meg Duffy compõe suas músicas sob o nome de Hand Habits desde 2014, quando lançou seu tímido EP de duas faixas, Small Shifts. Com uma trajetória que esbarra com a de outros artistas como Weyes Blood e The War On Drugs – além de ser parte do duo yes/and, é no Folk e suas variantes que Meg se sentiu confortável para dividir suas experiências. É desta escola que seu estilo parece ter herdado aquela característica sincera do gênero – tornando suas composições um diário aberto e honesto. A partir de então, discos como placeholder (2019) ganharam destaque pela forma como Hand Habits encarna uma persona escapista de Meg – buscando refúgio na música, sem medo de parecer triste ou exagerado demais. Assim, é de se imaginar que este refúgio fosse essencial para que Meg sobrevivesse durante a pandemia – isentando-se do caos da imprevisibilidade. Porém, a realidade trouxe uma mudança na forma como seus discos poderiam ser encarados até então. Hand Habits é agora um nome que não ajuda Meg a fugir, mas a se encontrar.

Este é o sentido primordial de Fun House, terceiro disco de sua carreira. Em entrevista para The Fader, Meg comenta que uma das formas de tentar mudar este papel da música para si foi tentar sair do modelo de composições tristes e melancólicas. Assim, fica claro neste trabalho que introspecção não é um sinônimo de tristeza – muito pelo contrário. A forma como Meg procura dar sentido a suas experiências se traduz por canções que saem do escopo “singer-sadwriting” e encontram em outros gêneros musicais, como Synthpop e Indie, elementos essenciais para esta construção. Por assim dizer, o disco ganha um tom mais otimista, porém longe da abordagem “coach-vai-ficar-tudo-bem”. O otimismo é uma artifício para lidar com questões mais sérias, retirando o medo de se auto enfrentar. Para isso, o disco conta com a produção de SASAMI, veterena do Indie/Bedroom Pop que ajudou Meg a buscar novas formas e estéticas para dar voz a estas descobertas e narrativas. É uma ironia deliciosa: uma forma de sair de sua zona de conforto para que isso possa lhe trazer mais conforto.

A primeira faixa, “More Than Love” deixa claro como a estética sonora reflete a mudança de narrativa – trazendo tons mais alegres com sintetizadores quentes e hospitaleiros. Com participação de Perfume Genius, “Just To Hear You” é uma balada que usa esse tom otimista para falar de um término – fazendo da contradição matéria-prima do disco. “False Start” retoma um pouco do espírito Folk tradicional do começo da carreira de Meg, com arranjos de cordas envolventes. “Concrete & Feathers” também é do Folk, mas de uma parcela mais voltada para o Rock. “Gold/Rush” talvez seja a faixa mais ambiciosa de Fun House, envolta de uma psicodelia que beira o Rock Progressivo dos anos 1970, mas não se afasta da estrutura cancioneira Pop. Por fim, “Control” resume a experiência temática deste trabalho, como uma espécie de conclusão final de que nos resta apenas controlar o que é possível em nossas vidas.

Reduzir Fun House a um produto das ansiedades de pandemia é uma injustiça frente ao seu verdadeiro potencial. É um trabalho que mostra brilhantemente as estratégias desenvolvidas por Meg para não fugir de sua essência. Trata de sensações aparentemente antagônicas, mas que no fim se revelam como duas faces da mesma moeda. Medo e coragem são abordados não como produtos incompatíveis, mas como parte de processos diferentes. Neste disco, Hand Habits  vai na direção contrária ao mainqueísmo, abarcando, com personalidade, contradições inescapáveis.

(Fun House em uma faixa: “Gold/Rush”)

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ARTISTA: Hand Habits

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.