Resenhas

Hatchie – Keepsake

Australiana estreia LP que nos guia entre seus dramas adolescentes por meio de uma sonoridade Dream Pop nostálgica

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Ano: 2019
Selo: Ivy League Records
# Faixas: 10
Estilos: Dream Pop, Indie Rock
Duração: 45’
Nota: 3.5
Produção: John Castle

É curioso como adjetivar uma sonoridade de “adolescente” pode variar seu sentido dentro das possibilidades que o termo oferece. Um primeiro caminho pode sugerir certa ingenuidade, conferindo à peça um ar de impulsividade ou imprudência. Uma espécie de construção emotiva, porém simples. Por outro lado, o aspecto nostálgico pode aparecer também nesse exercício, brincando com nossas memórias, apelando para timbres ternos aos nossos ouvidos. Seja qual for a intenção, é certo que, quando falamos nesses termos, é pela emoção que o artista pretende nos fisgar.

Para a cantora e compositora australiana Hatchie, costurar timbres intensos e letras sinceras parece ser algo que ela sabe fazer com facilidade há algum tempo. Uma escuta superficial de seu EP Sugar & Spice (2012) poderia sugerir uma figura de garota Indie incompreendida; aos moldes de Zooey Deschanel em She & Him. Entretanto, em um segundo momento, suas canções logo quebram esta imagem. Entram em cena, então, referências do Dream Pop: Cocteau Twins e Lush, por exemplo. Assim, a artista nos coloca no olho de um furacão de emoções entre suas guitarras reverberadas e baterias distantes. É aqui que o termo “adolescente” parece cair como uma luva. Ele funciona tanto para falar da sinceridade com a qual Hatchie expõe seus conteúdos mais íntimos, como para lembrar-nos de um passado recente e mergulhar no dilúvio emocional que ele pode trazer.

Seu disco de estreia Keepsake não foge muito da fórmula aplicada em seu EP lançado anteriormente. Na verdade, temos a impressão de que estamos em uma expansão do território que já estávamos explorando. Aqui, a produção afiada de John Castle parece ter selecionado os melhores elementos daquela impulsividade adolescente para os colocar ainda mais em evidência. Os reverbs estão maiores e, com isso, certa claustrofobia atravessa as músicas da cantora. As melodias, ainda mais doces e pegajosas, hipnotizam sorrateiramente: quando menos percebemos, Hatchie já nos levou para os lugares de sua alma que quer nos apresentar. As letras, por isso mesmo, ampliam o espectro emocional da artista. Elas falam de amores vividos e rompimentos devastadores – situações com as quais todos nós, de alguma forma, somos capazes de nos identificar.

A viagem pelo universo da australiana começa com “Not That Kind”. A faixa, por meio de seu Dream Pop leve, faz a linha desabafo: “Achei que poderíamos chegar até de manhã / Mas, você sumiu sem deixar vestígios”, canta. Sem medo de cair em clichês, seu romance e sucessivo término ganham espaço na dolorosa “Her Own Heart” que também chega com frases de efeito. Exemplo: “Ela atirou em seu próprio coração com sua própria flecha”. Em “Unwanted Guest”, reaparece o vívido sentimento de não pertencimento, tão comum a adolescentes. “Secret”, no entanto, se contrapõe a isso tornando-se o auge da balada do amor idealizado por comédias românticas dos anos 1990. Por fim, “When I Get Out” leva o ouvinte a um vórtex psicodélico que, sustentado por sintetizadores etéreos e uma linha de baixo potente, bebe diretamente da fonte de Cocteau Twins.

Em seu debut, Hatchie dá um jeito de trabalhar com esteriótipos, mas a seu favor. Para alguém que evoca uma sonoridade “adolescente”, seu disco transborda maturidade, talento e habilidade em saber utilizar seu arsenal de referências e vivências para prender o ouvinte. Keepsake é hipnótico e se dá ao esforço de guiar-nos pelas trajetórias emocionais da cantora. Em resumo, um tour guiado por um museu de fantasias, frustações, amores e desapegos de uma jovem do século XXI.

(Keepsake em uma faixa: Secret)

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ARTISTA: Hatchie
MARCADORES: Dream Pop, Indie Rock

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.