Resenhas

Hayley Williams – Petals For Armor

Uma aguardada estreia para uma trajetória solo que ainda renderá muitos bons frutos

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Ano: 2020
Selo: Atlantic Records
# Faixas: 15
Estilos: Art Pop, Dance Pop, R&B
Duração: 55'
Produção: Taylor York

Hayley Williams não é nenhuma novata. Logo, seu debut solo, Petals For Armor, chega cercado de grande expectativa para os fãs que a acompanham desde o início do Paramore. Ela assinou o primeiro contrato com a gravadora Atlantic Records em 2003, quando tinha apenas 15 anos. Desde então, lançou cinco discos à frente de banda, e After Laughter, o último, saiu em 2017.

Hoje, aos 31 anos, ela bebe de outras referências que vão muito além do Pop Punk – tal qual o último disco da banda sugerira. Se, no passado, a cantora mirou no Deftones e acertou no Emo e afins, hoje, as influências vêm de nomes como Sade, Erykah Badu, Björk e Radiohead. O lançamento aconteceu no início de abril, no meio da pandemia, e dominou as manchetes dos veículos gringos. Dois terços do projeto já haviam saído em forma de EPs, deixando apenas as últimas cinco faixas como inéditas. A trinca simboliza os elementos fogo, terra e água.

Depois de passar 16 anos na rotina do Paramore, Hayley decidiu dar uma pausa após os shows da turnê de AL. Percebeu que precisava cuidar de suas próprias cicatrizes – traumas de seu divórcio e se curar da depressão que a acompanhava há quase dez anos. Além disso, durante as gravações do disco solo, a avó da cantora sofreu uma grave queda que afetou sua memória permanentemente. Assim, temas como luto e perdas afetivas também serviram de combustível para sua catarse.

O conceito do trabalho foi amarrado com a metáfora das flores: elas desabrocham, elas vivem e elas morrem – como em qualquer ciclo da vida. A delicadeza e a beleza também surgem a partir de um lugar de força, do terreno fértil e pronto para ser semeado. Um tipo de feminilidade discreta, que combina com o seu novo momento de maturidade. Cuidar para se fortalecer. O tema aparece no nome das músicas, nas letras, nas fotos de divulgação e nos clipes – de fato, não é lá muito sutil.

A artista só conseguiria chegar a esse ponto depois de passar mais da metade da sua vida na companhia de homens, que não entendiam a natureza de sua angústia. Foi necessário um mergulho profundo em si mesma para o nascimento de Petals For Armor. Em uma tradução literal, “armadura de pétalas”, seria sua forma de demonstrar força e fragilidade. Por um período, trocou os palcos e as batidas de cabelo pelo ambiente caseiro e até encontrou refúgio na dança. A canção “Cinnamon” ganhou clipe com coreografia e uma letra detalhista – fala de cheiros conhecidos, rituais diários e de se sentir confortável. Ela desabafa: “Home is where I’m feminine” (“Casa é o lugar onde sou feminina”). No passado, esse lado permanecia dentro do armário. Hoje, é motivo de orgulho.

A primeira palavra da faixa de abertura, “Simmer”, é “rage”(raiva). A canção poderia estar no último disco do Paramore, mas ela faz muito mais sentido na narrativa construída na base de suor e lágrimas. Com clima borbulhante, a canção não tem cara de hino de estádio, como no caso dos hits do passado, e nos apresenta uma atmosfera mais pessoal. O talento de Hayley – como vocalista e letrista –, rendeu canções que deram uma cara à cultura pop da segunda década dos anos 2000. “That’s What You Get” (2007), “Ignorance” (2009) e “Ain’t It Fun”(2013) são exemplos de êxitos que ajudaram a definir musicalmente o período. Canções feitas para serem gritadas no meio de milhões pessoas em um show a céu aberto e cheias de sentimento e confusão de quem está começando a vida – suas composições são relacionáveis e, por isso, foram tão sedutoras para uma legião de jovens.

O momento atual é de introspecção: as canções são mais pessoais e falam de um lugar delicado. Ao longo dos últimos anos, as expressões enérgicas do “caos” perderam espaço, assim como as guitarras, que agora dão lugar à calmaria, aos grooves e às danças. Ainda que, por exemplo, o instrumental de “Pure Love” remeta a After Laughter, ela só se materializa após esse movimento de interiorização. “If I want pure love / Must stop acting so tough”(“Se eu quero amor puro / Preciso parar de agir tão ‘durona’”).

Quando não estava focada no projeto principal, Hayley se abriu a novas colaborações. Desde o EDM, em “Stay The Night”, de DJ Zedd, até o Indie, em “Bury It”, do CHVRCHES. Ela ainda revisitou suas origens no Rock Alternativo ao lado do American Football, com “Uncomfortably Numb” – referência ao clássico do Pink Floyd. Antenada também à geração atual, a cantora declarou à Pitchfork que “Cinnamon” foi influenciada por “Pretty Things”, da banda Big Thief. (Adrienne Lenker canta que há uma mulher dentro dela, há uma dentro de você também e ela não faz sempre coisas lindas).

Não à toa, a canção “Roses/Lotus/Violet/Iris” traz vozes do trio Boygenius, composto por Lucy Dacus, Phoebe Bridgers e Julien Baker, nomes quentíssimos do Indie atual. Cada uma, à sua maneira, fala sobre angústias com altas doses de sinceridade. A canção celebra o feminino coletivo, em um jardim onde cada flor possui a sua singularidade – “And I will not compare other beauty to mine” (“Não vou comparar outras belezas à minha”). Os tempos são outros: em 2018, a cantora tomou a decisão de não cantar mais o hit “Misery Business”, do Paramore, que fala sobre se gabar pelo roubo do namorado de outra menina – alimentando uma desnecessária rixa feminina.

Quando relacionamentos aparecem no novo disco, como na sequência “Sudden Desire” e “Dead Horse”, eles dialogam, fundamentalmente, com a ideia de experiência e são expostos com franca vulnerabilidade. Em meio à tradição pessoal de letras pesadas com instrumentais alegres, há até um áudio real em “Dead Horse”, no qual Hayley fala: “desculpa, demorei três dias para te mandar isso, estava deprimida, mas estou tentando sair disso”. Demonstrações de tristeza temperadas com esperança.

Gravado apenas pela cantora e por seus companheiros de banda, o disco contou com Taylor York, guitarrista do Paramore, como produtor de todas as canções. Por um lado, em termos de produção, acompanhamos um passo ousado e interessante pela música Pop. Por outro, há um ímpeto e uma determinação, que, às vezes, podem soar um tanto dispersos. Músicas para melhor amigo, para as mulheres, para ex, tem um pouco de tudo, e isso também se reflete nas tentativas de York de mesclar atuais referências musicais. “Over Yet”, uma grande synth party, carrega um refrão que poderia ser da vibe Carly Rae Jepsen, mas o lance das cantoras Pop é que, geralmente, elas contam com uma porção de produtores diferentes nos discos, o que os incrementa com inventividades e texturas sonoras ricas e diversas.

E a questão é que Hayley não é exatamente esse tipo de artista – e talvez nem queira ser. De qualquer maneira, o aspecto familiar é inegavelmente reconfortante e, quando as produções se cercam de ideias não convencionais, elas se destacam e surpreendem. “Sugar On The Rim” arrebata por esse desprendimento, com graves marcados, beat dançante e uma voz precisa e certeira. A identidade da artista ainda está lá, mas apresentada de maneira repaginada e triunfante em diversos momentos. Sem dúvida, uma estreia um tanto tardia para uma saga que ainda renderá muitos bons frutos.

(Petals For Armor em uma faixa: “Over Yet”)

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