Resenhas

Hierofante Púrpura – Disco Demência

Novo trabalho do grupo traz uma personalidade nova à maturidade já conhecida

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Ano: 2016
Selo: Balaclava Records
# Faixas: 5
Estilos: Psicodelia, Indie Rock, Garage Rock
Duração: 39:57
Nota: 3.5
Produção: Hierofante Púrpura e Jonas Morbach

A demência é uma doença degenerativa comumente associada à perda de memória e de funções cognitivas. É difícil calcular o tamanho do impacto que nomear um álbum de Disco Demência pode ter, ainda mais quando se trata de uma banda tão madura quanto Hierofante Púrpura. Vinda de uma relação íntima de sonoridades de baixa fidelidade, fato percebido com firmeza em seus último EP, a banda sempre se preocupou em trazer algo a mais para seus discos, evitando que eles caíssem em um grande estereótipo do Lo-fi, como muitas bandas ainda persistem em fazer.

Desta vez, as coisas parecem ter assumido uma nova profundidade, não só no que diz respeito a trabalhar com timbres menos caricatos, mas com relação a toda personalidade que a banda construiu ao longo destes anos de carreira. A lisergia pesada ainda está presente, mas de formas diferentes e não tão explosivas quanto antes. A demência começa a ficar mais clara, uma vez que, quando instaurada no corpo humano, muda a personalidade da pessoa por completo.

O trabalho pode ter poucas faixas, mas a média/longa duração delas nos trazem novas experimentações, principalmente no que tange a Psicodelia menos óbvia. Cachorrada é quase um mantra nos primeiros minutos, mas ao poucos revela uma natureza Rock‘n Roll porrada, com letras ácidas, um baixo estupidamente poderoso e guitarras reverberadas. Acalenta Lua traz firme um arranjo típico dos anos 70 (mais especificamente na enigmática ode lisérgica Echoes, de Pink Floyd), unindo-o com um alguma coisa de Sonic Youth, tirando o ouvinte de sua zona de conforto.

Baratas (Elas Continuam As Mesmas) é uma montanha russa extremamente imprevisível. Se em um momento estamos flutuando em delays e timbres de piano elétrico suaves, em outro estamos em alta velocidade como em um jato kamikaze, esperando o momento do impacto. Por fim, O Óxido Da Rotina é corrosiva, com pitadas amargas de Noise Rock e ambientações hipnóticas (até mesmo alucinantes), fazendo uma viagem metafísica com um controle impressionante, ao invés de simplesmente fazer uma jam infinita e sem propósito.

Hierofante Púrpura explica sua demência e retira dela o que há de mais saudável, ainda que seja uma tarefa extremamente árdua. É um trabalho com uma nova perspectiva, que trilha caminhos interessantes para o futuro da banda a partir de uma mistura de referências saudáveis com bons momentos de experimentalismo lunático. Ao dar play esquecemos de tudo a nossa volta. Nada mais importa, a não ser a demência que ele produz em nós.

(Disco Demência em uma faixa: O Óxido Da Rotina)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.