Resenhas

Hinds – The Prettiest Curse

Terceiro disco da banda espanhola soma experiências anteriores e, ao mesmo tempo, amadurece e amplia possibilidades

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Ano: 2020
Selo: Lucky Number
# Faixas: 10
Estilos: Indie Pop, Garage Rock, Dream Pop
Duração: 32'
Produção: Jennifer Decilveo

O terceiro disco da banda Hinds, The Prettiest Curse, soma as experiências dos últimos anos de estrada do grupo, ao mesmo tempo que amadurece e expande seu universo sonoro. A estética Lo-Fi dos álbuns Leave Me Alone (2016) e I Don’t Run (2018) ficaram no passado. A nova fase não perdeu a euforia do começo, mas se permite desacelerar e apresenta canções Pop açucaradas – as melhores que elas já fizeram.

Direto ao ponto, o álbum soa polido e confiante sem precisar apelar a excessos. O mais curto da discografia, o trabalho honra a sonoridade da Hinds do passado, mas tem fome pelo futuro. São 10 músicas lapidadas em uma duração de pouco mais de 30 minutos. As referências são sutis no universo costurado pela produtora americana Jennifer Decilveo, que colaborou com nomes variados no currículo – Beth Ditto, Bat for Lashes, Albert Hammond Jr.

Gravado ao longo de oito meses em Los Angeles, o projeto foi produzido com mais calma e atenção redobrada nos detalhes. Há uma maior riqueza sonora entre os inconfundíveis riffs de guitarra: seja um sintetizador, um pedal, um efeito de voz ou até mesmo o barulho de abrir uma latinha de cerveja (“Boy”). Elementos que expandem o som do grupo que, há dois discos, apresenta faixas honestas e cativantes.

Os solos de guitarra das também vocalistas Ana Perrote e Carlotta Cosials conquistaram fãs do Brasil ao Japão. Acompanhadas da baixista Ade Martin e da baterista Amber Grimbergen, elas viajaram o mundo em longas turnês. Desde o EP Demo (2014), a banda parecia determinada a chegar nas pessoas que se identificam com suas canções cheias de energia. Talvez seja esse um dos motivos para o adiamento de TPC do início de abril para maio – muitas letras do novo trabalho falam sobre estar na estrada, ter uma rotina incomum e a saudade de casa.

Em 2016, o primeiro disco apresentou a essência do grupo: fãs de Indie Rock da era dos Strokes, mas contemporâneas ao estilo Mac DeMarco. Na cidade natal das artistas, uma própria cena de “garagera” se espalhava por meio de outros nomes como Los Nastys, Baywaves e The Parrots. Em geral, nenhum desses outros pares alcançou uma projeção internacional como elas, talvez por não sustentarem o mesmo Pop efervescente. A Hinds foi a primeira banda espanhola a tocar em festivais como Glastonbury e Coachella e também a primeira a se apresentar no talk show de Stephen Colbert. Hoje em dia, são agenciadas por Ryan Gentles, manager dos Strokes.

Como foi fazer shows e rodar o mundo? Elas respondem na música “Just Like Kids (Miau)”: tem gente enchendo o saco o tempo todo. “Tenho certeza que você amaria escutar o meu conselho / Você está sempre desafinada”. Além de comentários sobre o sotaque, o que vestir e aparência. No final, concluem que o perrengue vale a pena e cantam sobre isso ser um tipo de sina (“Prettiest Curse”).

A honestidade continua rendendo letras sobre relacionamentos, falhas de comunicação, entre outros desabafos com alta carga sentimental. E, na dúvida, a melhor resposta é um solo, “a melhor linguagem”, como a guitarrista Ana Perrote explicou ao Consequence of Sound. “Sem erros, sotaques ou erros de ortografia”. Faixas como “Burn”e “Take Me Back” dialogam com a Hinds do passado na base das guitarras altas. A pira com as cordas rendeu uma música instrumental no primeiro disco, a “Solar Gap”.

Se, nos últimos anos, o peso das guitarras vem sendo repensado por artistas na América do Norte, na mesma época, a chama estava acesa em Madri – e continua firme aqui. Despretensiosa e divertida, a presença e as canções da banda são acessíveis sem perder o charme. O novo disco mantém a base com duas guitarras, baixo e bateria, que sustentam as explorações adicionais de timbres e beats. Já na primeira faixa, “Good Bad Times”, que também saiu como single, ecoam timbres que parecem ter saído do City Club (2016), disco do The Growlers, produzido por Julian Casablancas. Uma canção Indie Pop com refrão chiclete a respeito de uma relação que vai mal (“você nem está mais dormindo comigo” ou do tipo “simpre parece que yo tengo culpa)

O espanhol apareceu no primeiro disco como título de uma música em inglês (“Castigadas En El Granero”), e no segundo trabalho, está misturada ao inglês e francês na acústica “Ma Nuit”. Em 2020, ele ainda aparece tímido, mas eficaz. A faixa “Boy” se destaca com a receita de Cosials e Perrote se alternando nos vocais e na guitarra, acompanhada de refrão apoteótico, com direito a um angustiante “todo el día con el chico en la cabeza”.

O jogo entre os vocais também brilha na lentinha e acústica “Come Back And Love Me <3”, uma canção romântica sobre um amor que foi embora. Um passo para além do Garage Rock, a faixa explora harmonias e uma nova faceta da banda. Sofrer por alguém também é tema de “Waiting For You”, exemplo de um Indie Rock que não tem medo de soar dançante ou demonstrar fragilidade.

Conforme construíram entrosamento, a banda ganha profundidade e detalhes, exercício trabalhado ao longo das músicas novas. O disco soa no lugar e cada pedaço representa um pormenor da identidade do quarteto. A melancólica “This Moment Forever” encerra a narrativa com vocais arrastados em uma atmosfera aérea – uma esperançosa balada Dream Pop. O desejo da banda é viver disso para sempre, mas, ao mesmo tempo, sabe que ficar longe pode ser difícil. Sofrer pela distância pode acontecer por conta de uma turnê ou de uma pandemia: a questão, em TPC, é conseguir viver no presente. A conclusão: aproveitar tudo o que pode acontecer, e o que for ruim vira história para contar.

(The Prettiest Curse em uma faixa: “Boy”)

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ARTISTA: Hinds

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