Resenhas

Hurray for The Riff Raff – LIFE ON EARTH

Oitavo disco de Alynda Segarra mescla contradições políticas do mundo contemporâneo a desafios pessoais em repertório instigante e, acima de tudo, franco

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Ano: 2022
Selo: Nonesuch Records
# Faixas: 11
Estilos: Folk Rock, Indie Rock, Alternativo
Duração: 40'
Produção: Brad Cook

Mudar-se para grandes centros urbanos tem se tornado um modelo de produção de discos cada vez mais comum entre artistas. Seja em L.A, Berlim ou São Paulo, há essa ideia de que as megalópoles favorecem a criação e o intercâmbio cultural, proporcionando discos cada vez mais ambiciosos em sua construção. De fato, exemplos de superdiscos feitos nessas condições não faltam, mas também não se deve ignorar que o inverso pode ser igualmente eficaz. Fugir das cidades é como um retorno ao processo criativo centrado na pessoa, normalmente significando um tempo muito menos marcado pela urgência de um cronograma. Seja um hipster tentando superar um relacionamento (Bon Iver, For Emma A Long Time Ago) ou uma banda que incrementa sonoridades movida por futebol e sol (Los Hermanos, Ventura), isolar-se para criar é um respiro do mundo externo. É esse fôlego extra que a cantora e compositora Alynda Segarra tem buscado em seus discos.

Desde 2007 lançando músicas sob o nome de Hurray for The Riff Raff, Alynda traz para sua obra um refúgio em si própria. Após sua mudança do Bronx, Nova Iorque, para New Orleans, o projeto funcionou como um diário no qual ela podia desabafar sobre sua vida – a diferença é que, ao invés de apenas escrever e refletir, Alyssa parecia reviver sua experiências intensas a partir de suas músicas. Essa, portanto, sempre foi uma característica muito evidente de seu trabalho: tocar o ouvinte na mesma medida que os temas destas canções a tocaram. Colecionando sete registros de estúdio, dentre os quais dois foram lançados de maneira totalmente independente, sua discografia foi ganhando popularidade e apresentando uma artista que navega por diferentes zonas musicais. Seja no folk americano clássico de Small Town Heroes (2014) ou no indie rock de espírito singer-songwriter de The Navigator (2017). Agora, em um cenário que o isolamento é menos uma escolha e mais uma norma, a sonoridade robusta passa por uma série de transformações e o resultado é um disco que resguarda sua assinatura, mas mantém viva a curiosidade por outros temas e referências.

Life On Earth é um disco definido pela artista como “punk da natureza” – uma escolha de termos que juntos parecem atingir a essência do disco de forma magistral. O elemento punk não aparece aqui por meio do estereótipo do eixo Ramones/Sex Pistols, mas indiretamente por referências que transitam livres entre Patti Smith e Cat Power. Não tem tanto a ver com guitarras distorcidas, mas com a rispidez e a agressividade transmitidas por meio de letras que abordam o sentimento de estar vivendo uma série de acontecimentos mundiais violentos. Life on Earth é punk porque, ao invés de usar o isolamento para se desvencilhar da realidade, é justamente ele que auxilia Alynda a combater a realidade de frente – primeiro se percebendo no meio desse caos político-econômico e depois compreendo as contradições vigentes.

Já o aspecto da natureza vem da fuga dos centros urbanos diretamente para os arranjos do disco – uma natureza que contraria a ideia de buscar timbres mais suaves e mansos é representada de diferentes maneiras durante o disco. Afinal, a natureza não está isenta do fardo político do mundo e ela também é afetada por tal. Por isso, o trabalho tem uma característica ambivalente: às vezes parece calmo, porém tenso, e às vezes é agressivo, mas com certa gentileza. Alynda expressa essas contradições propondo relações igualmente conturbadas nas combinações entre gêneros, mas assegura uma coesão muito clara durante todo o repertório.

Uma rápida pincelada pelo tracklist do disco evidencia estas relações coeso-contraditórias. “PIERCED ARROWS”, por exemplo, traz timbres opressivos de graves e guitarras, mas durante o refrão o tom geral é calmo e libertador – tudo feito com aqueles mesmos timbres densos. “RHODODENDRON” traz o embalo constante e contagiante de um violão folk, porém com um timbre de voz tenso que deixa sempre o ouvinte em estado de alerta. “nightqueen” constrói um limbo sustentado pela ambient music, desprovido de percussão marcada e escorada em pads de sintetizador que nos obriga a deixar se perder pela música. “ROSEMARY TEARS” começa com um órgão fúnebre, quase iniciando um culto, mas aos poucos cede espaços para frases de metais contemporâneos que nos fazem repensar se estamos tristes ou felizes. Após dizer tanto, é curioso que o disco encerre com a curta e instrumental, “KiN”, como um terreno neutro para que possamos voltar a realidade de forma gradual.

Em seu oitavo disco, Alynda continua a fazer do isolamento seu método predileto de composição. A questão central do álbum é que, ao invés de fugir do mundo, Life On Earth reitera aquilo que faz da realidade o que ela é: contraditória. Entre uma faixa e outra, a artista conduz o ouvinte por um caminho que sempre é marcado por elementos, a princípio, dissonantes, mas que, ao longo do registro, ganham sentido. O disco soa da maneira que soa porque vivemos as contradições dia a dia e não poderia haver outra maneira de representá-las que não essa.

(Life on Earth em uma faixa: “PIERCED ARROWS”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.