Resenhas

I Break Horses – Warnings

Terceiro disco do projeto de Maria Lindén traz antagonismos sentimentais permeado por Dream Pop com toques fantasmagóricos

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Ano: 2020
Selo: Bella Union
# Faixas: 12
Estilos: Dream Pop, Bedroom Pop, Shoegaze
Duração: 54'
Produção: I Break Horses e Chris Coady

Qualquer um que se aventure pela curta discografia de I Break Horses certamente percebe uma característica fantasmagórica nas sonoridades construídas por Maria Lindén, nome à frente do projeto. Permeada por influências Shoegaze e Dream Pop, ela faz de ecos e reverbs seus confidentes mais sinceros, criando, na sobreposição de várias camadas, um mistério que traz o ouvinte para o cerne de suas composições.

Seu segundo disco, Chiaroscuro (2014), é um exemplo perfeito de como o álbum completo é muito maior do que o mero somatório dos diferentes instrumentos presentes. Maria Lindén trabalha como uma invocadora: ao colocar ingredientes sonoros seletos, ela traz uma entidade misteriosa, algo como um ritual. E é por esta entidade misteriosa – cuja identificação precisa é algo dispensável – que os fantasmas de I Break Horses surgem e nos assombram de forma sedutora.

Agora, com o lançamento de Warnings, terceiro disco do projeto, estes fantasmas surgem de uma forma mais próxima daqueles de Os Fantasmas de Scrooge – clássico de Charles Dickens que ganhou algumas versões cinematográficas ao longo dos anos –, com uma espécie de advertência ao mundo. Maria Lindén avisa que, apesar de não ser um disco necessariamente político, é severamente atravessado pelas instabilidades da contemporaneidade. Por isso, o título do disco. Cada faixa é, segundo a compositora, um sutil aviso de que as coisas não andam bem. Assim, o repertório inteiro é construído em cima dessa angústia advertida, refletindo em uma sonoridade cativante e misteriosa. Seja pelos timbres que oscilam nos deixando em vertigem, ou pelos barulhos precisamente localizados, Warnings é uma trilha sonora de tempos desesperadores e altamente reflexivos.

As características expressas têm direta relação com a forma como o disco foi composto. O aspecto de trilha sonora vem do exercício de composição que Maria Lindén fazia, ao tocar alguns acordes enquanto assistia a filmes com o áudio desligado – sobrepondo assim a sua visão dos acontecimentos, segundo o sentimento da música que compunha. Muitas dessas composições entraram para o disco.

Já o aspecto da angústia fantasmagórica que escutamos nas composições vem do duro processo de colocar este disco no mundo. Segundo Maria, ela precisou de seis anos para produzir o disco. Computadores quebrados, dois anos de atraso, recriar o material – desistir do novo material –, trabalhar sozinha em casa na novíssima forma do disco. O sentimento de uma saga cheia de intempéries pode ser identificado na obra.

Apesar de toda a angústia, advertências sobre um futuro incerto e um processo de composição árduo, o tom do álbum não é de todo pessimista, mas de reflexão e contemplação frente ao caos. “Turn” abre o disco com quase dez minutos de composição, em uma constante progressão de acordes que é cantada de diversos modos – sem nos entediar em nenhum momento. “I’ll Be The Death Of You” encanta com sua mistura precisa de Chromatics e Slowdive, nos deixando à deriva no rio guiado por Maria. “Neon Lights”, por sua vez, se apega aos anos 1980 com sequenciadores acelerados e típicos do New Wave Gótico. “Death Engine” traz uma montanha-russa de sentimentos, em ápices de epifania contrastados com momentos extremamente melancólicos. Por fim, “Depression Tourist” ressignifica o estereotipado instrumento do Vocoder (no qual acordes de sintetizadores envelopam a voz do cantor) sob uma introspectiva roupagem.

Warnings não tem como objetivo criar pânico. Suas composições podem ter fantasmas, mas, no final das contas, são aqueles que vêm para nos ensinar. Talvez este seja o intuito de Maria Lindén. De nos assombrar com a complexidade, mas de nos trazer reflexão intensa sobre a incerteza. Um misto de sentimentos deliciosamente incompatíveis e que gera movimento.

(Warnings em uma faixa: “Death Engine”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.