Resenhas

Ibibio Sound Machine – Electricity

Com produção assinada por Hot Chip, novo disco da banda britânica traz deliciosas contradições em proposta que vai do afrobeat ao synthpop

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Ano: 2022
Selo: Merge Record
# Faixas: 12
Estilos: Synthpop, Dance Punk, Experimental
Duração: 48'
Produção: Hot Chip

O fato de Ibibio Sound Machine conter em seu nome a palavra “máquina” não parece ser uma obra do acaso. Entretanto, a máquina aqui não vem como símbolo de frieza e ausência de emoções, muito pelo contrário – parece ser uma comparação com o ritmo incessante e seu poder. Com quase 10 anos de carreira, o grupo trouxe em sua discografia uma paleta rica de sonoridades que, junto dessa força bruta, ganha forma sob diferentes discos. Escutar cada um deles é como explorar diferentes paisagens, porém com um elemento em comum: um estrondoso baque. Em um mesmo trabalho,  referências do afrobeat, jazz e funk conseguem encontrar um denominador comum que soa, ao mesmo tempo, experimental e altamente acessível. Cada disco parece nos suprir de uma demanda mais caótica e complexa, mas também proporcionar ritmos e arranjos calmos e harmônicos – uma aparente contradição que só Ibibio saberia resolver. Seu disco de estreia e autointitulado (2014) é um ótimo exemplo para compreender como essas misturas se dão na prática. Os sintetizadores pulsantes entram em total harmonia com as fortes e marcadas percussões. Ao mesmo tempo, esses sons fortes causam alguns momentos de claustrofobia. Uma sonoridade que é harmônica e desarmônica num mesmo espaço de tempo.

O diálogo entre partes aparentemente opostas é uma das marcas registradas da banda e, com o passar do tempo, os experimentalismos foram se tornando mais intensos. Hoje, o grupo coloca no mundo sua nova (e bem-sucedida) tentativa de dar vazão a essas contradições. O patamar que a banda se encontra agora é, mais uma vez, perfeitamente expresso na escolha do nome: Electricity. O componente elétrico, por assim dizer, é uma junção de diferentes contextos que se sobrepõem neste trabalho. Um desses contextos foi como a pandemia e o lockdown afetaram positiva e diretamente os processos de composição da banda. Em entrevista para a Narc Magazine, o grupo comenta que os horários e cronogramas apertados do pré-COVID deram espaço a uma dinâmica de lançamento muito mais flexível com o tempo. Este tempo foi suficiente para que Ibibio Sound Machine trouxesse um olhar mais atento para o disco, polindo as arestas e se permitindo arriscar mais. O resultado é um trabalho que, entre outras particularidades, acentua ainda mais as diferenças da sua sonoridade, principalmente nos sintetizadores – que agora não são mais objetos de flerte, mas de uma relação que procura compreender todas as possibilidades do instrumento.

Outro contexto que impulsionou a banda a encontrar sons mais eletrizantes foi a produção assinada pela banda Hot Chip. Veteranos do synthpop, ambas as bandas se admiravam mutuamente enquanto faziam turnês pelo mundo. A expertise de Hot Chip com o funcionamento de diferentes sintetizadores trouxe um peso diferente à máquina de som. Edições e manipulações extremas de timbre são apenas algumas das contribuições de Joe Goddard e sua trupe – uma parceria que não tem a intenção de sobrepor às mensagens ricas de Ibibio Sound Machine. O som acaba se tornando mais intenso, sendo violento na medida certa e obrigando os ouvintes a dançarem fervorosamente (mesmo que seja um constante balançar de cabeça).

Ouvindo os primeiros segundos de “Protection From Evil”, poderíamos supor que se trata de um disco de synthpop, mas assim que a vocalista Eno Williams começa a bradar as primeiras palavras, começamos a perceber que definitivamente estamos em um terreno que nenhum gênero musical é capaz de dar conta. “Casio (Yak Nda Nda)” sugere uma referência ao estridente indie rock, mas logo em seguida se torna uma canção sagrada, na qual um dos elementos percussivos é a própria voz da vocalista. A influência de Hot Chip parece transbordar para outros nomes e, em “All That You Want”, é difícil não escutar um distante LCD Soundsystem e Daft Punk – é claro, redesenhados sob a ótica experimental de Ibibio Sound Machine. O Afrobeat tem seu momento de ouro em “Oyoyo”, quando os diferentes tambores e xilofones entram em um ritmo extremamente contagiante, enquanto um solo de guitarra psicodélico rasga pelo arranjo. “Freedom” encerra o trabalho no que pode ser descrito como a síntese do disco, afinal está tudo lá – sintetizadores mirabolantes, a voz potente de Eno e o elemento rítmico envolvente.

A máquina de Ibibio Sound Machine está mais viva do que nunca. Com o tempo a seu dispor e um time de produção incrível, a banda estpa rodeada de recursos e linguagens possíveis para exprimir sua verdade. Estamos diante de gigantes sonoros e o melhor jeito de compreender o quão grande eles são, é se colocar no centro de Electricity e sentir essas contradições. Um gigante que é assustador em seu urro, mas também dócil em seu acolhimento. Apenas Ibibio Sound Machine para nos colocar em meio a um conto de fadas experimental e frenético.

(Electricity em uma faixa: “Freedom”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.