Resenhas

Idlewild – Everything Ever Written

Banda escocesa retorna após três anos com atualizações sonoras do bem

1,374 total views, no views today

Ano: 2015
Selo: Empty Words
# Faixas: 12
Estilos: Rock, Rock Alternativo, Punk
Duração: 54:14min
Nota: 3.5
Produção: Rod Jones

Se usássemos o esporte bretão como ponto de partida para metáforas mil, a banda escocesa Idlewild seria aquele segundo time do coração. Seria o América/MG, a Portuguesa, o América/RJ ou algo no gênero. Representa, de alguma forma, aquela tênue ligação que temos com algo que nos é familiar e que permanece imutável ao longo da vida. Veja, é quase certo que o segundo time jamais será mais importante que o primeiro, mas nos acompanhará por toda a vida, talvez nos lembrando que é possível ser mais simples, ingênuo ou fácil. Explico: Idlewild começou em meados dos anos 1990. Ao contrário do que era feito pela maioria de bandas contemporâneas, Roddy Woomble (vocais) e Rod Taylor (guitarras), os dois donos do grupo, sempre preferiram pensar que sua música era capaz de mover as pessoas, criticar o estabilishment e criticar a loucura do cotidiano. Ingênuos, admitamos.

Para levar adiante sua versão de Rock, Idlewild forjou uma liga sonora a partir das canções rascantes ecoadas do movimento Punk, misturou com perspectivas de fora para dentro, trazidas por formações americanas – como R.E.M, por exemplo – e pegou emprestado alguma autocrítica guitarrística, possivelmente de grupos como Pavement ou Guided By Voices. Poucas concessões a modismos e instrumentos eletrônicos, portanto. Everything Ever Written é o sexto álbum em 18 anos de carreira, descontado o hiato vivido entre 2010 e 2013, no qual a banda quase suspendeu suas atividades temporariamente. Woomble, Taylor (que assina a produção), além do baixista Andrew Mitchell, do baterista Colin Newton e do tecladista estreante Luciano Rossi conseguem atualizar a proposta sonora sem descaracterizar sua essência, que é a mesma desde que pisaram no palco pela primeira vez, em 16 de janeiro de 1996.

É possível perceber a mudança na proposta sonora logo na primeira canção do disco, Collect Yourself, que alia uma levada sinuosa de baixo em meio a comichões de guitarra e alternância entre ruído e silêncio, algo que acrescenta dinamismo à gravação. Já em Come On Ghost, a canção seguinte, o contrário ocorre. O aspecto guitarreiro domina o cenário, mas a rapidez de outrora foi trocada por um ritmo cadenciado e com espaço para pequenos e bonitos solos erguidos por Taylor. So Many Things To Decide é mais próxima de uma canção gospel, cortesia do belíssimo trabalho de teclados e órgão oferecido por Rossi. Só em Nothing I Can Do About It temos ecos inequívocos da velha sonoridade de Idlewild, prestes a transbordar, contida por guitarras que anunciam o que vem pela frente. Woomble canta com alma e a levada é respeitosa, ainda que não traga a catarse de outros tempos.

Every Little Means Trust é puro R.E.M safra 1989, só que mais lento, reflexivo e atento aos significados. (Use It) If You Can Use já há algum aceno a um andamento Country Rock tradicional, bem feito, bem enguitarrado aerodinâmico. Like A Clown é balada Folk de beira do caminho, sobre amores e partidas, com violões ancestrais e pontuações de guitarra aqui e ali, sem acessórios que impeçam a delicadeza de se instalar. On Another Planet tem início com uma alvorada guitarreira que dá a partida numa tradicionalíssima canção com a marca Idlewild, cheia de harmonia e rapidez, sem que isso coloque em risco a elegância e brejeirice. All Things Different tem algumas cacofonias desnecessárias de metais mas exibe um elegante revestimento beirando o R&B branco oitentista, com a vigilância discreta dos pianos de Luciano Rossi. Radium Girl já apresenta teclados que parecem realejos e desemboca num andamento pós Punk estilizado mas econômico em detalhes e acessórios. Left Like Roses é uma pequena joia de efeitos e contenção, com simbiose perfeita de pianos, guitarra, baixo e bateria, numa condução elegante e cheia de classe.

O encerramento com Utopia é psicodélico e triste, assim como a própria banda neste momento. A ideia é abrir mão da alta velocidade e abraçar as nuances e climas que vão surgindo no caminho. É bonito e eficaz.

1,375 total views, 1 views today

BOM PARA QUEM OUVE: Pvement, Blur, R.E.M.
ARTISTA: Idlewild
MARCADORES: Punk, Rock, Rock Alternativo

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.